Mês: Junho 2016

Ando às voltas com a descoberta da minha vocação. Não ando à procura dela. Na verdade, ando às voltas porque já a encontrei mas não sei o que fazer.

Quantas pessoas gostariam de ter encontrado a sua vocação? Quantas ainda a procuram? E eu? Eu já a encontrei! Ainda assim continuo às voltas!

A questão é que a minha realidade não combina com a minha vocação. Viajar, passear, descobrir, descansar, enfim, estar de férias é a minha vocação! A cada ano que passa estou cada vez mais convicta de que nasci para estas tarefas. Não é um papel para todos! Mas deveria ser para mim! Afinal eu nasci para isto!

Encontrei a minha vocação, mas não tenho vida para ela! A minha realidade é trabalhar. E a minha realidade é superior à minha vocação. Não contente, ando às voltas com a descoberta da minha vocação.

Quando vou de férias, demoro sempre um par de dias a desligar dos horários e dos afazeres profissionais. É uma descompressão progressiva.
No primeiro dia, durmo mais uma hora do que o habitual, penso no trabalho outra hora.
No dia seguinte já sou capaz de dormir mais duas horas do que o horário habitual e já só penso meia hora no trabalho.
No terceiro dia, acordo o quanto antes para aproveitar o máximo e já não penso senão nesta condição que me cai que nem uma luva: férias!
É como entrar no mar para o primeiro mergulho mal chegamos à praia. Vamos entrando aos poucos ambientando o corpo à temperatura do oceano. Molha daqui, molha dali. Quando finalmente mergulhamos, já não pensamos em sair da água. Esquecemos o quão fria está para nos entregarmos ao sabor da maré!

Quando regresso ao trabalho o processo é ao contrário: durmo menos e sofro a pressão progressivamente.
No primeiro dia, durmo menos três horas do que aquelas que o corpo pede e relembro as férias sete vezes durante o dia.
No segundo, durmo menos duas horas do que as que o corpo pede e relembro as férias três vezes.
No terceiro dia, levanto-me quinze minutos mais tarde que a hora estipulada porque adormeci e esqueço as férias passadas porque só tenho olhos para as futuras!

Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho depois de duas semanas que souberam a pouco face ao proveito ter sido tanto!
Hoje foi o primeiro dia, amanhã será o segundo… a água não está fria, está gelada!

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Foto by Daniel Fazio, Unplash

O prédio é baixinho. Tem 3 andares. Em cada andar, duas habitações. Contas feitas, é um prédio de seis apartamentos. Mas não estão todos habitados. Os r/ch esquerdo e direito são casas de férias. Estão grande parte do ano vazias.

Quanto aos outros andares, vejamos de cima para baixo: no segundo direito vive uma mãe cujos filhos já casaram e já seguiram para as suas próprias casas. Esta senhora deve sentir-se tão só que dá conversa e comida aos pombos! É um problema ir à janela quando ela decide alimentá-los…

No segundo esquerdo vive um simpático e educado casal de reformados que está longe de ter uma vida pacata. Entre os 3 filhos casados, noras e genro, netos e netas, o entra-e-sai mora aqui, nesta casa precisamente!

Descemos mais dois lances de escada e chegamos ao primeiro andar. No direito, vivem um pai idoso e o filho solteiro. São duas pessoas calmas e discretas. O idoso passa a maioria do seu tempo em casa e a passear o seu velho amigo de quatro patas no jardim em frente ao prédio, enquanto espera ansiosamente o regresso do seu filho do trabalho das 8h às 17h nos correios.
Por fim, no primeiro esquerdo vive um casal de quarentões com os seus dois filhos: um rapaz de 17 anos e uma menina de 5.

Apesar deste ser um prédio movimentado pelos seus próprios condóminos, bastava a família do primeiro andar esquerdo para lhe dar vida! Pois não há um dia em que não se ouçam! A menina de 5 canta assim que acorda, mais ou menos às 7 horas da manhã! O rapaz de 17 anos toca guitarra eléctrica sempre que lhe apetece. Ora equacionando o tempo livre de um adolescente e a intensidade de entrega a uma paixão, escusado será descrever a música de fundo constante. O que vale é que deve durar pouco! Como se não bastasse, apesar da jovem idade do guitarrista e de uma perfeita audição inerente, este músico só consegue ensaiar em altos decibéis! Quanto ao casal, pois bem, relembram-me com uma frequência cansativa o velho ditado: “casa ralhada não é governada!”

E as vidas destas quatro casas prosseguem semana atrás de semana traçando por consequência a vida do próprio prédio. Mas há uma altura particular em que estas rotinas são interrompidas! É a altura dos jogos de futebol!
O sai-e-entra congela!
O pai espera o filho em frente ao televisor desprezando os horários habituais de ida à rua do cão.
Todas as músicas, sejam elas cantadas, tocadas ou ralhadas silenciam-se. É na paz de passes de bola, faltas, enfim, de todo o tipo de comentário futebolístico que a harmonia e o sossego invadem o pequeno edifício.
Ora, não sendo uma particular apreciadora deste desporto, passei a considerá-lo sagrado e estou quase a desejar campeonatos diariamente!

Não sei por vocês, mas por muito que queira simplificar, tenho sempre a sensação de levar a casa às costas quando viajo. Isto não é de agora, é desde sempre! Mesmo assim, tenho vindo a esforçar-me nesse sentido. Como?
Por reconhecer e registar que regresso sempre com duas ou três ou mais mudas de roupa que acabo por não vestir e por fazer melhor as contas na vez a seguir.
Por repetir o mesmo exercício com o calçado, os acessórios e até as leituras.
Por colocar em recipientes à medida dos dias que estarei fora o champô, acondicionador, creme corporal e outras necessidades básicas.
Estes são pequenos gestos que fazem a diferença e aliviam a carga!
Mas há uma ironia adjacente a este mau hábito de quererermos ser tartarugas em escapadelas longas ou curtas de descanso e descoberta. Se a ideia é descontrair, desfazer a rotina e aliviar o dia-a-dia porque nos sobrecarregamos de forma fútil imediatamente antes de sair de casa? Não faz sentido! Se o fazemos nesse espaço de tempo sagrado que são os dias do nosso descanso, nem quero pensar o quanto nos sobrecarregamos diariamente!

Contudo, se conseguirmos que o nosso esforço dê o fruto de nos reduzir a uma única mala na partida, uma coisa não conseguiremos: é reduzir a do regresso. Porque essa, a bagagem do regresso, será sempre, mas sempre a maior! Se assim não for, não soubemos viajar.