O senhor da mala

Há um senhor que passa na minha rua todos os dias, no início da tarde de regresso a casa com uma mala com rodas. Pela velocidade dos seus passos, a mala parece-me leve, leve de vazia. Vejo-o sempre a voltar do lado do mar para o lado terra. Já me aconteceu observá-lo no seu regresso duas vezes no mesmo dia. Ora para ele vir todos os dias, também tem de ir, mas neste trajecto, parece estranho, mas nunca o encontrei. Se este fosse um episódio pontual, não me intrigaria, mas já há largos meses que assisto a este desfilar de uma direção apenas. De tal maneira que me suscitou uma série de perguntas. Em que momentos do dia vai ele? E em que momentos vem?

Hoje, em meio ao silêncio da aparente noite calma, deitada no sofá à espera que a insónia desistisse de mim, ouvi o deslizar das rodas no alcatrão. Pareceu-me uma mala e fui até à janela. E, para minha grande surpresa, lá estava ele! O senhor da mala estava a descer a rua às 5h30 da manhã. Afinal ele sai bem cedo! Fiquei a olhar para a rua até ele desaparecer, como a minha avó fazia comigo sempre que a visitava. Para não desperdiçar um segundo da minha presença, acenava um adeus até os seus olhos não me alcançarem mais. Aqui não era uma despedida, mas sim um encontro.

E no instante em que regresso ao sofá e acredito ter saciado a minha curiosidade quanto ao momento de pelo menos uma das duas vindas do lado mar para o lado terra, às quais eu assisto há tanto tempo, volto a ser interrompida por um barulho que vinha da rua. Era um som, agora conhecido: o das rodas de uma mala no alcatrão. Desta vez corri para a janela com a certeza do mais incerto, ver o senhor da mala. E lá estava ele, a voltar! Se nada sabia, ainda menos fiquei a saber.

Permaneci uns segundos à janela no mais silencioso do meu ser. Não ouvi nada. Voltei a deitar-me no sofá e entreguei-me aos pensamentos. Pensei em tantos de nós e nas nossas bagagens. Quantas vezes já subimos e descemos os dias sem rumo? Ou quantas vezes andámos às voltas com a nossa bagagem sem sabermos onde a pousar? Somos todos senhores da mala com a pequena diferença de que a nossa, embora invisível, esteja tantas vezes pesada.

Deitada no sofá, em meio ao silêncio da aparente noite calma, finalmente adormeci.

Photo by Mantas Hesthaven on Unsplash

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