Gastar o latim

Comecei a aprender alemão no ensino secundário por influência de um diretor de turma que me assegurava que as minhas boas notas a gramática me permitiriam aprender facilmente esta língua germânica. Ora bilíngue em português e francês, a minha escolha pendia para uma língua latina, mais precisamente o espanhol. Afinal, a dificuldade das disciplinas não iria diminuir com o passar dos anos e se eu pudesse facilitar em alguma coisa…

Contudo, o que se acha nem sempre é certo, nem na idade adulta, quanto mais aos quatorze anos. Os dias seguintes foram passados a pensar no conselho do professor que me convenceu com o argumento “descobrir uma nova língua e cultura”. Acabei por, não só, escolher o alemão como segunda língua, como também optei por latim! Se ía conhecer uma nova língua, convinha aprofundar as origens das minhas! E de facto, consegui sempre melhores notas nestes dois quebra-cabeças do que no tão fácil inglês. Devo-me ter preparado para gramáticas dificultosas e, talvez por isso, tenha barrado a mente a raciocínios onde a complexidade não morava. Aconteceu-me com a língua inglesa e com outras formas de comunicação. Houve situações na minha vida às quais atribuí uma carga de drama desnecessária, mas só mais tarde percebi.

O latim foi uma feliz correspondência às minhas expectativas. Ajudou-me a perceber ainda melhor as línguas que eu já dominava. Quanto ao alemão, foi fascinante por conseguir construir frases com palavras e sons que não se assemelhavam a nada do que estava habituada. A cada nova palavra, uma nova conquista! Mais parecia uma brincadeira na qual me saía bem.

Aprender sabe bem e vicia. Quanto mais aulas tinha, mais assimilava! Ao contrário de tantos outros momentos da minha existência, desejei sair dos livros para a realidade. Queria testar in loco o que estava a aprender . Assim, ir à Alemanha tornou-se um sonho. Nessa altura, eu vivia em França, mesmo ao lado. Portanto, a fantasia não era assim tão descabida.

Não era, mas passou a ser. De forma inesperada, mudei de país e, por consequência, de ensino. Portugal não é ao lado da Alemanha, assim como o meu devaneio também se tornava mais longe de ser real. E nem todas as escolas públicas ofereciam como opção a língua em questão. Sem alemão durante três anos, não evoluí. Retomei-o na faculdade, lamentando a cada aula a professora que já não tinha. Continuei sem evoluir.

O tempo não espera, já o sabemos, por isso os anos continuaram a passar. Quase três décadas depois, no mundo das línguas novamente, resolvi retomar esta antiga paixão. O entusiasmo tem sido uma constante ao descobrir que, afinal, ainda me lembro de muito! Quanto ao devaneio, está neste momento transformado em sonho realizado. Estou na Alemanha a testar os meus conhecimentos de língua alemã.

O que vou dizer é com toda a certeza um cliché, mas de facto, é importante e não dispõe de outra maneira de ser expresso (e para quê complicar):

⁃ Não renunciem aos vossos sonhos, por muito irrelevantes que possam parecer.

Às vezes, vale a pena gastar o latim.

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