O tempo é algodão doce

O mês de junho começou bem! As temperaturas estavam tão quentes que a tarde era de sorna, mas quando se gosta muito de livros, a leitura vence o sono e a sua preguiça. E lá fui eu, feliz da vida para a 89ª Feira do Livro de Lisboa.

Uma vez que entrei pela parte de cima do Parque Eduardo VII a fim de sacar a foto do panorama real, decidi iniciar a descida das avenidas da mega biblioteca ao ar livre pelas editoras cujas bancas se encontravam à sombra. As outras, exploraria-as depois.

De passo bem lento, qual lesma, fui-me deixando ir à mercê das cores das capas, dos títulos dos livros… e se algum me chamava a atenção, espreitava o nome do autor. Sob a desculpa de querer muito saber do que tratava, agarrava o livro em questão com as duas mãos para o ler melhor. Não é esta a razão que nos leva a resistir tanto ao livro digital, sendo este tão mais acessível do que o de papel? É ver com as mãos! E conforme saltava lentamente de livro em livro, de banca em banca, sempre à sombra, dava por mim a arrastar os meus passos, não só pelo calor, mas porque não queria chegar ao fim da primeira avenida. Queria permanecer mais tempo com a mesma sensação com que tinha chegado: a de ter ainda muito para descobrir depois.

Numa tentativa de deixar o melhor para mais tarde, insisti na procura de uma banca de gelados. Enquanto não achava um multibanco (erro meu não ter levado dinheiro vivo, apesar da publicidade ao MBWAY, os vendedores de gelados não aceitavam dinheiro moderno) queimei sombras e editoras. Mas não fazia grande mal, afinal voltaria ali depois.

Por entre as sombras que me serviram de guia, fui parar ao interior de um expositor. Não resisti. Parte dos autores que queria estavam ali, à minha frente em livros de todas as espessuras. Muitos títulos já conhecia, outros nem por isso. Ainda bem! É sinal que depois dos títulos que já conheço e não li, ainda existem outros que desconheço e vou querer ler. Sem falar das editoras que ainda me esperavam. É tão bom saber que ainda há um depois!

Mal acabava de folhear um livro, o meu olhar detinha-se noutro que me apressava a ir buscar. E mais outro! E se cada livro é um mundo, imaginem a imensidão! Eu queria saber todos os mundos. Num gesto sôfrego, fui empilhando os livros nos braços, apertando-os contra mim, qual abraço disfarçado. Aqueles já eram meus, mesmo antes de os pagar! Dali já não saíam. Não se deve ir ao supermercado de barriga vazia, pois corremos o risco de comprar tudo. Da mesma maneira, não se deve ir a uma feira do livro de porta-moedas vazio. Corremos o risco de ficar esfomeados por muito tempo. Assim, comprei alguns, deixando outros… para depois.

As horas foram passando e a terra foi rodando para dar sombra às restantes bancas que ainda contava explorar, depois. Mas entretanto, encontrei-me com amigas e pessoas conhecidas. O contentamento leva à alegria, a alegria ao entusiasmo e este dispersa-me sempre a mente até à desconcentração. E assim foi. Aproveitei as sombras, mas desta feita para uma amena cavaqueira. Conversa puxa conversa e o tempo foi inesperadamente derretendo. Parecia muito, mas revelou-se muito menos do que o que aparentava. Expositores nem vê-los. O foco estavam a ser as minhas queridas pessoas. De repente o telefone tocou e trouxe-me à realidade. Percebi o tardar das horas e o pouco tempo que me sobrava para o meu depois. Restavam-me apenas dez minutos, dez minutos para as pessoas, para as avenidas, os expositores, os tão desejados livros que tinha consciente e voluntariamente deixado para trás.

Consultei a lista de livros que tinha vindo a elaborar de há uns meses para cá e confirmei que já não me faltava tudo. Apressadamente, transformei os 10 minutos em 15, caso contrário seriam 20 ou mais.

Não comprei todos os livros que razoavelmente queria. Contudo não fiquei muito longe. Não explorei a feira com a calmaria requerida, fui demasiado lenta. Também não concluí a conversa como queria. Tudo porque enquanto pude, fui deixando para depois.

Encaramos o tempo como algodão doce. É aparentemente enorme, mas assim que o saboreamos, desfaz-se… docemente.

Photo by Patryk Sobczak on unplash

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