O tempo

Quem é o tempo? Quem é este ser que não se padece das ansiedades alheias? Que consegue ser perseguido, ansiado e evitado no mesmo instante?

Indiferente às eras, ignora os caprichos de todos, quanto mais de cada um. O tempo passa ao seu ritmo. É dono do seu nariz.

Uns, dizem que não passa. Outros, que voa. Outros ainda, tomam-no por bálsamo, enquanto outros tantos, por vezes os mesmos, encaram-no instrumento de dor. Ao tempo pouco-lhe importa a nossa opinião. Faz orelhas de mercador a todas essas músicas de longínquas vozes.

E mais! O tempo não se finge apenas surdo, como também persevera na sua mudez. Passa simplesmente sem se pronunciar em vocábulos. E continua a passar, fiel a si próprio, seja lá o que ele for.

Não obstante, é indubitavelmente expressivo. Não se enganem! As marcas que deixa, todas elas profundas, constituem provas indeléveis. As leves não subsistem. Essas são isso mesmo: leves. Desvanecem com um pouco dele.

Sem princípio nem fim, ao tempo basta-lhe simplesmente passar. Existe subtil e concretamente, mas sempre de passagem. Manifesta-se doce e antagonicamente amargo e, de quando em quando, insípido até!

Percebo claramente que já me iludi tanto ao querer abreviá-lo, adiantá-lo, enganá-lo, involuntária ou intencionalmente! Independente, o tempo passa.

Descobri que o tempo segue sempre em frente, mas não passa de um eterno teimoso. O ritmo é o seu ritmo, não o de outrem. E eu gosto que assim seja, pois resigno-me por nunca ter conseguido atribuir-lhe uma velocidade certa a não ser a dele próprio. Se o tempo estivesse à minha espera…

Resta-me continuar a aprender a vivê-lo assim, como é. Decidi então que, de proveito consciente, por mim, o tempo pode passar, tal qual o ritmo dele.

Photo by Kunj Parekh on Unplash

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