Domingos

Gosto dos passeios de domingos em que o mundo parece ter-se desalojado de gente. Domingos em que a inércia da paisagem nos ganha e nos faz ansiar o relativo frenesim do dia-a-dia dos dias da semana.


Hoje é domingo e um desses dias. Hoje é um domingo passado numa pequena vila da Beira na qual todos os estabelecimentos comerciais estão fechados. Apenas um ou dois cafés e os hipermercados nos arrebaldes rompem com a passividade deste dia incolor. Em tempos, fugia desta apatia por permanecer na minha concha e pintá-los com filmes e livros, os tons da irrealidade, no fundo. Mas hoje, abraço-os com vigor. Corro para fora de casa e circundo-lhes a abulia de todos os meus sentidos abraçando a tristeza que aos meus olhos carregam. Servem-me de arrimo quanto a momentos vindouros no futuro próximo e empanturram-me de intento.
Como um virar de página para uma nova folha em branco a aguardar novos traços, estes domingos anunciam a oportunidade de um novo recomeço onde nos podemos reinventar.


Gosto dos passeios de domingos em que o mundo parece ter-se desalojado de gente. Domingos em que a inércia da paisagem nos obriga a passear em nós.