A primeira semana em casa

Confesso que foi uma semana mais intensa do que expectava. Entre reconfigurar esta nova forma de estar e gerir as emoções, foram muitas as frentes de luta.

A mais difícil foi certamente traduzir a importância de ficarmos em casa juntos dos maiores de 70 anos da minha família. Todas as razões eram válidas: compras, farmácia, espairecer, etc. Eram válidas sim, ontem, numa vida que parece mais distante do que o tempo que a mede. Manter os pais em casa revelou-se uma tarefa herculana! Nem o apelo à emoção me foi de ajuda. Após várias crises de nervos parei para refletir melhor. Se calhar deveria ter começado ao contrário… Os meus nervos não estavam a ajudar em absolutamente nada. Nem a eles nem a mim. Percebi que demoram um pouco mais de tempo a interiorizar porque vivem a um ritmo normal, enquanto nós, os filhos, de idade mais jovem, aceleramos sempre mais um pouco em tudo e eles deixam-nos ir… Porém, desta vez, no caminho de cuidar uns dos outros a alta velocidade era permitida e necessária.

Entretanto, à semelhança de muitas outras pessoas, também tive de reconfigurar um pouco o meu trabalho. Já tinha alunos a quem dava aulas online, mas tive de tornar alunos presencias em alunos digitais. Escudei-me de ferramentas disponíveis para criar recursos para os manter na rotina, pelos menos nestas aulas. Confesso não ter sido bem sucedida em todas as frentes, mas estou muito satisfeita pelas que consegui.

Família e trabalho em velocidade cruzeiro, cheguei finalmente a mim. Entre o abalo, a comoção e a preocupação, os esforços não se mediram para que me mantivesse positiva. Tive medo, tive coragem, senti tristeza, recuperei a alegria… foi um carrossel, qual montanha russa, de sentimentos durante esta primeira semana. Umas das melhores resoluções foi sem dúvida dosear a quantidade de notícias às quais acedia, reduzindo para 15/20 minutos por dia. Claro que quero estar informada, contudo não preciso de fazê-lo o dia inteiro. O mesmo quanto às redes sociais. Os efeitos positivos foram sentidos ao fim do dia a seguir. O ter o meu mais-que-tudo de regresso ajudou-me a dispersar as nuvens negras do sótão e a permitir ao sol brilhar um pouco e mais e mais a cada dia.

Existiu uma vida antes do Coronavírus, existe uma vida durante esta epidemia e estou convicta de que a vida nunca mais será a mesma depois deste trágico evento na saúde pública e no dia-a-dia de cada um de nós. O mundo virou-se completamente do avesso. Para a grande maioria, o que tinha importância passou para segundo plano e os pequenos pormenores de ações e hábitos que dávamos por garantidos tornaram-se, hoje, o grande foco da nossa mente.

Uns ainda não acreditam no que está a acontecer e vivem o momento descontraídamente na esperança de que amanhã o hoje tenha sido um sonho mau; outros falam do grande revés da natureza que decidiu dar-nos uma lição mesmo com a incerteza de que todos vão aprender; outros ainda, como eu, acreditam em Deus e que tudo nos será esclarecido muito em breve.

Foto de Diana Parkhouse on Unsplash