Helena Magalhães

Durante a escrita dos seus livros, soube sempre o final que queria dar às suas histórias, mas não o percurso para lá chegar. O mesmo aconteceu na vida real. Ainda que não soubesse como lá chegar, a nossa convidada teve sempre muito para dizer. Felizmente, hoje a sua voz faz-se ouvir através da escrita e do incentivo à leitura. Leitora militante criadora de um clube do livro digital, a autora Helena Magalhães tem agora a palavra. Vamos conhecê-la melhor.

O que lhe deu vontade de escrever livros?

Eu escrevo desde muito nova e o Raparigas como Nós acabou por ter muito desse material que fui repescar (os diários da Isabel). Mas quando somos miúdos e temos a pressão para escolher um curso com apenas 17 anos, é normal que acabemos por sair fora dos planos. Eu sempre tive fobia em ter um emprego que fosse todos os dias igual e na altura estava muito envolvida com as questões de género e em projetos de igualdade entre jovens e decidi ir para Política Social, contra as expectativas dos meus pais e professores que acharam que ia seguir literatura ou jornalismo. A meio do curso envolvi-me com a violência doméstica e a proteção de crianças e decidi formar-me também em Criminologia. Se me perguntarem o que eu queria fazer, nem sei bem. Eu só queria ter uma voz. Queria usar essa voz para fazer alguma coisa com significado, trazer alguma mudança ao mundo por mais pequena que fosse. Mas aos 26 anos percebi (como acontece a muitos jovens) que aquilo que imaginava que poderia fazer (as expectativas da profissão), era muito difícil fazer em Portugal onde não há propriamente uma política social bem estruturada. Estava desmotivada e convicta que tinha escolhido a profissão errada. Nessa altura fez-se um click: podia usar a minha voz de outra forma e virei-me para o jornalismo e para a escrita. Foi como voltar a um lugar que já conhecia, que sempre cá tinha estado à minha espera. Foi como reencontrar um velhinho amigo e voltar a dizer-lhe “Olá!”. Depois de ter estado alguns anos a trabalhar em imprensa e com um blog onde escrevia muito, a ideia de um livro surgiu naturalmente. Na altura já andava a escrever o Raparigas como Nós (tinha a história da Isabel e do Afonso estruturada), mas coloquei-o de lado para escrever o Diz-lhe que Não, tendo por base as crónicas do blogue que faziam uma sátira às relações e à forma como vivemos o amor nos dias de hoje. No início de 2018 voltei a pegar no Raparigas como Nós e dediquei-me a ele o resto do ano. Por essa altura já sabia que os livros eram o que me movia e onde queria usar a minha voz. E é o que tenho andado a fazer até agora e que espero poder continuar a fazer.

Onde encontra a inspiração?

Eu costumo dizer que a inspiração está em todo o lado. Temos é de ter os olhos abertos a ela. Às vezes são coisas totalmente banais, coisas que estou a ver na televisão ou a ouvir no rádio e que me levam a uma outra ideia qualquer. O Diz-lhe que Não eram histórias de amigas e de amigas de outras amigas, eram conversas que íamos tendo em jantares e serões e que eu ia guardando porque achava que eram histórias engraçadas com detalhes que faziam toda a diferença. Muitas das situações no Raparigas como Nós vieram literalmente de conversas com amigas, músicas ou séries ou livros que despertaram alguma inspiração em mim. Sempre que me perguntam onde a pessoa se pode inspirar, eu digo sempre para saírem de casa, conversarem com outras pessoas, ouvirem música, lerem livros… porque é isso que desperta a inspiração e que coloca a nossa mente a funcionar.

Hábitos de escrita: onde escreve? Em que momento do dia? Quanto tempo dedica à escrita?


Eu acho que cada pessoa tem o seu processo. Leio muitos posts e artigos na Internet com mil e uma dicas que para mim não funcionam. Aquela que vejo mais é a que diz para escrevermos todos os dias 1 página. No final do ano temos 365 páginas e um livro escrito. Honestamente não acho que seja assim. Temos livros fabulosos de 200 páginas e livros de 600 páginas que são uma treta. E não creio que o processo de escrita seja tão matemático assim. Acho que a escrita tem de fluir naturalmente. Há dias em que nada sai e eu não perco muito tempo nesses dias. Mas há outros em que estou horas a escrever e posso, de repente, ter 40 páginas escritas de uma assentada. Eu escrevo maioritariamente em casa porque preciso de ter música ligada e um ambiente propício. Mas não tenho um momento do dia ou um número de horas por dia. Eu vou escrevendo. Há alturas em que escrevo mais à noite porque durante o dia estou ocupada e outros em que tiro o dia inteiro para escrever.

Improvisa à medida que escreve ou conhece o fim antes de escrever?


Ahah! Boa pergunta! Eu acho que muitos escritores já sabem o fim das suas histórias e depois só têm de montar a narrativa e o que as personagens vão fazer até chegar àquele desfecho. No Raparigas como Nós eu já sabia que o Simão ia morrer (spoiler), só não sabia o que iria acontecer até chegarmos a esse final. Eu queria que a sua morte tivesse alguma mensagem para passar, não só às outras personagens, mas aos leitores. Mas tudo o resto foi sendo improvisado. As personagens foram falando comigo e era como se eu entrasse nas suas vidas e ia imaginando aquilo que fazia sentido elas viverem.

Qual é o seu livro preferido?


Impossível dizer um livro favorito. A lista de livros incríveis que tiveram (e continuam a ter) impacto em mim é muito grande. 

Uma breve mensagem de incentivo para quem gosta de escrever.


Para quem gosta de escrever, eu diria que o mais importante é ler. Ler muito! Vejo muitos, muitos, muitos autores nas redes sociais a dar imensos erros ortográficos e isso retira toda a credibilidade. E, o mais importante, eu diria que é não ceder às editoras de autor (como a Chiado Editora) que vão destruir totalmente o livro e o nome do autor. Se acreditam na vossa obra, vão bater à porta das boas editoras em Portugal. Não se contentem com uma editora que vos faça pagar para imprimir o vosso livro.

Muito obrigada!

Para acompanharem o trabalho da Helena:

Instagram: @helenamagalhaes e @hmbookgang

Site: http://www.bookgang.pt

Helena Magalhães e o seu mais recente livro “Raparigas como nós”.

A foto de capa desta publicação é da Shelby Miller no Unsplash