A casa abandonada

A casa abandonada por Ana Guilherme Martins

A casa abandonada ergue-se perante mim, altiva, severa. Engulo em seco. Não sei o que me deu na cabeça para meter aqui os pés.

Das janelas sobram as molduras, quais retratos tingidos pelo pó do tempo cuja fotografia obscureceu. A porta de madeira escancarada quase convidava a entrar, não fosse o passado impor-se logo ali. A altivez  e a severidade acentuam-se num longo olhar ao interior sombrio da casa.

Não sei o que me deu na cabeça para meter aqui os pés, repito a mim mesma. 

O bom de se deixar ir ao sabor da maré também tem as suas surpresas. Todavia, eu só gosto de boas surpresas. Porque temos a tendência de nos encaminharmos por becos, sem nos apercebermos? Dou por mim no meio de nada, sob o convite estendido de uma casa abandonada. Rejeito!

Não sei como cheguei aqui, nem porque aqui vim tão pouco! Mas será que isso importa? Estou aqui, agora, e impõe-se a decisão de entrar ou a de ir embora. Enquanto tento pensar, ouço um barulho seco e vejo uma tímida pequena luz vinda da casa. Bloqueio o olfacto para apurar todos os outros sentidos enquanto recuo dois ou três passos para uma melhor percepção do cenário à minha frente. Deixo de ouvir e de ver. 

Não sei como vim aqui parar, mas não me posso impedir de avaliar se vale a pena avançar. Sombria é a minha posição se não medir o que fazer. Não sei se escolha romper esta hesitação e invadir a casa abandonada, se recue para a minha. Interrompe-me em sobressalto a questão “porque não?”. Embora nada nesta experiência me atraia, o que me pode trazer uma casa vazia cuja história mal conheço? Volto a olhar a casa mais atentamente, se é possível. Não lhe vejo barulho, não lhe ouço vida.

É importante sabermos o que queremos, mas, de igual modo, o que não queremos. Esta busca converte-se num exercício constante ao longo da vida. E o que quero eu? 

Avanço mais um pouco, plena de contrariedade em mim. Porque avanço, então? Cansaço de pensar? Avançar revela-se, naquele instante, um exercício de menor esforço mental ao de ficar quieta e avaliar os passos.

Quando estamos em terras áridas, no deserto, a sede chega-nos e sugere-nos pequenos lagos onde só existe areia. No meio a um campo sem luz onde subsiste uma casa, o medo sugere-me assombro. Não sei o que me deu na cabeça para meter aqui os pés, porém descubro que o meu maior pavor sou eu própria, ou melhor, o medo de mim. O medo de ficar a sós, comigo mesma. 

Não sei como cheguei aqui, mas sei como posso ir embora. Dou meia volta e regresso ao caminho iluminado pela pressa de chegar, onde a iluminação ajuda os olhos a não cegar pelo terror, mas sim pela luz artificial, auxílio do pensar longe do medo.

  • Então? Como é a casa?
  • A casa é vazia e tranquila.
  • Mas entraste?
  • Não precisei! Não precisamos de nos lançar a um abismo para perceber que nos vai engolir.
  • Mas a ideia era saíres da tua zona de conforto, enfrentares o medo do escuro.
  • O escuro não se enfrenta, aceita-se. Foi o que fiz.

Aceitei a minha parte obscura, aceitei o meu medo, coisa que há muito não fazia. Persevero em esconder medos sob risos nervosos; finjo a alegria por abafar a tristeza; demonstro sorrisos para inverter os olhos de chorarem e permitir aos lábios de esboçar sorrisos.

Porém, hoje não. Hoje deixei-me ir até ao escuro. Saí da minha zona de conforto.

A casa estava apenas vazia, a assombrada era eu pela minha necessidade de estar sempre feliz.

Não sei o que me deu na cabeça para meter lá os pés, mas saí de consciência aguçada. Não faço muita questão de lá voltar, mas se isso acontecer mais alguma vez, vou respirar fundo e caminhar devagarinho de volta a mim.

4 Comments

  1. Adoro que tenhas olhado para a casa abandonada como uma metáfora! Foi uma ideia muito criativa, associada à obscuridade dos lugares mais recônditos da mente. “No meio a um campo sem luz onde subsiste uma casa, o medo sugere-me assombro.” é uma passagem maravilhosa que, só por si, conta uma história. Parabéns por este conto! 🙂
    Um beijinho!

  2. Para mim, o teu texto foi poesia . Adorei a forma como a casa e a personagem entram em confronto. E o medo: um sentimento/estado que nos faz parar.
    Gostei muito Ana. Obrigada por te atreveres a escrever 😘

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