A fuga da vingança

A fuga da vingança por Ana Guilherme Martins

Quando uma deslumbrante tarde de outono se torna numa fuga da vingança.

Ao contrário do que todos esperávamos nesta altura do ano, outubro, o calor do sol levou-nos a dispensar a segunda camada de roupa que o fim do verão impôs. Quando se vive junto ao mar e o sol resplandece, o que se faz? Aproveita-se a oportunidade de mais um dia de verão na praia, numa esplanada da praia ou num miradouro por cima da praia. Foi neste último poiso que escolhi passar um dia do fim de semana passado.

Domingo, o dia radiante convidou a espairecer e eu aceitei.  Agarrei nos óculos de sol , no meu saco de pano recheado de uma leitura ansiada e dirigi-me para um miradouro em forma de anfiteatro onde nos podemos perder no azul do mar, no azul do céu ou simplesmente nas páginas de um livro. Eu tentei aproveitar tudo! 

Ao chegar, já lá se encontrava um casal, apaixonado,  no local mais estratégico do espaço, entenda-se, o lugar mais central para assistir ao espectáculo oferecido pela paisagem. Sentada ao colo dele, os dois abraçados olhavam o mar. A achar que poderia perturbar-lhes a bolha de amor, atravessei o anfiteatro e sentei-me quase de costas para eles. Afinal, eu também não queria ser interrompida no meu romance. 

Instalei-me numa posição confortável que me permitisse aguentar um bom tempo. Pensei sem demora a não cruzar as pernas. Isto porque aprendi que pode ser uma posição confortável, mas muito prejudicial para o corpo. Mente sã, corpo são, mas vice versa também funciona!

Mal comecei a ler, o jovem casal resolveu pôr fim à sua sessão de aconchego, deixando vago o melhor assento do anfiteatro. Continuei com a cabeça no livro, mas com o canto do olho atento ao desaparecimento deles. Quando o meu campo de visão revelou ninguém, mudei-me para o local onde eles estavam. Agora sim, podia começar a desfrutar da minha tarde.

Instalei-me novamente e recomecei a ler, porém a atividade  do meu canto do olho não cessou. Desta vez, distraía-se com uma pequena mancha preta que se deslocava. Tirei os olhos do livro e averiguei da mancha. Era uma formiga que se aprontava para me trepar. Esperei pacientemente para ter a certeza das suas intenções e não me enganei. Aí estava ela a invadir o tecido das minhas calças. Decidida a tirar partido da minha leitura apenas iniciada, fiz da formiga berlinde e enxutei-a com o dedo. A formiga rebolou e quando parou retomou a marcha, desta vez, na direção oposta a mim.

– Ah! Percebeu. Agora é que é! – Pensei. 

Satisfeita da resolução rápida daquela interrupção, retomei, pela terceira vez, a leitura, não sem antes dar uma última vista de olhos à minha volta. Nada a assinalar, a não ser um outro pequeno bicho, desconhecido do meu leigo cardápio do mundo da insetologia. Este andava meio perdido. Para a frente, para trás, para trás, para a frente. A única evidência era a sua acelerada desorientação. Enquanto permanecia aparentemente quieta a observá-lo, porém pronta a saltar dali caso ele se decidisse a vir na minha direção, concluí que este bicho não identificado estava com medo de mim. Ele assistiu a como arrumei sem escrúpulos a inocente formiga para longe de mim e temia o mesmo injusto futuro. Apesar de muita hesitação, lá seguiu para o lado oposto, para longe. Por fim, pude retomar a minha leitura. 

Umas sete páginas depois, alternei a paisagem livresca com a do mar à minha frente. Que dia tão bonito! Estava-se mesmo bem! Lembrei-me, então, de olhar à minha volta. Estava num espaço exterior, com arbustos e ervas atrás de mim, era natural existirem alguns bichos. Todavia, alguns não significa uma formação deles. Qual não foi o meu espanto ao deparar-me, a cinco palmos de mim, com um número incontável de formigas, algumas alinhadas até certo ponto, outras a dispersarem, mas todas organizadas. Observei melhor e não eram apenas formigas, mas outros tantos iguais ao insecto tonto que tinha observado uns momentos. Estes, numa desordem aparente, também iam encurtando a distância que nos separava.

Olhei para o mar por uns instantes e recordei as três grandes razões pelas quais vários elementos da mesma espécie se juntam: encontrar comida, migrar ou defender-se de predadores. Para mim era óbvia a motivação deste exercito de seres minúsculos. Ainda pensei em sair dali e voltar para o outro lado do anfiteatro, aquele onde me tinha sentado em primeiro lugar, mas rapidamente percebi e reconheci a situação.

  Já é tarde demais. Eles querem vingança. Não tenho escolha senão fugir. 

3 Comments

  1. Olá, Ana Gui!
    O conto está tão giro! Adoro o olhar atento da protagonista, que observa sempre o que se sucede em seu redor. 😉
    Obrigada por teres participado, esperamos ver-te neste último tema!
    Um beijinho,
    Elisabete.

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