A NOIVA DO TRADUTOR de João Reis

A Noiva do Tradutor de João Reis

O livro 

A Noiva do Tradutor de João Reis na sua edição de 2019 pela chancela Elsinore da 20|20 Editora. Uma real surpresa!

Contracapa de A Noiva do Tradutor de João Reis

Estará este tradutor por si só amargurado pela vida ou será que a vida o amargurou pela partida da sua noiva?

Neste livro acompanhamos um tradutor rabugento e irado com tudo e com todos. Asfixiado pela sua situação, decide agir em prol dos seus objetivos  na certeza de, assim, fazer voltar a sua noiva que partiu de barco. Sem o seu amor, nada lhe faz sentido e a vida segue infeliz.

 

João Reis nasceu em 1985 em Vila Nova de Gaia. Licenciado em Filosofia, foi editor na sua própria editora de nome EUCLEIA. Hoje, para além de tradutor literário, é bolseiro da DGLAB. João Reis parece ir ao sabor da maré na sua vida já que aprendeu as línguas nórdicas por acaso e tornou-se escritor, não por tê-lo sonhado, mas pela necessidade de escrever. Vejam a entrevista do Crónicas ao autor aqui.

É precisamente na observação do que o rodeia, num olhar, com certeza, aguçado pela experiência de vida do próprio autor em diferentes países, que este tradutor materializa a voz dos que não se enquadram, dos chamados “outsiders”. Esta visão cativou-me a atenção. Quem nunca terá provado o trago desta amarga humanidade? Quem nunca se sentiu deslocado, excluído, comparsa deste desabafo:

“(…) este mundo é uma nojeira, chafurdamos no lodo, não há amigos, só interesseiros, chupam-nós até ao tutano, se fores uma coisa, lembram-se de ti, se o deixares de ser, nunca te conheceram, que miseráveis mentais, se fores ao estrangeiro, bajulam-te, querem saber onde estiveste, se andares poucos quilómetros pouco lhes interessa, não querem saber de nada (…)”

 

A minha opinião 

Quando peguei neste livro, o primeiro que leio deste autor, não tinha a mínima ideia do que me esperava. Um pouco como este tradutor menciona a respeito das pessoas.

“(…) ninguém sabe o que lhe vai na mente, quando abrimos a cabeça a um homem, não vemos nada além de líquidos e substâncias de consistência dúbia, seria bom extrair de lá pensamentos, tornaria a vida mais fácil, pelo menos, para quem as abrisse, não tanto para quem fosse aberto, porém, não há como negar que seria um espectáculo digno de se ver(…)”

Neste caso, eu vi longas frases a exprimir pensamentos de uma vida difícil de tão solitária. Todavia, foi um livro digno de se ler pelo olhar peculiar e pelo humor sarcástico do autor.

Em primeiro lugar, ri muito. Depois, enjoei o cheiro a enxofre dos vilãos da vida deste desafortunado tradutor. Finalmente, recordei que é frequente atirarmos aos outros o mal que sentimos e, consequentemente, confundir-se-nos os ângulos.

“(…) que cheiro a enxofre será este, algo de diabólico se encontra nestes poemas, talvez sejam simplesmente maus, não sei, muitos dizem que são bons (…)”

Ademais, este pequeno livro de 120 páginas, está pontuado de forma original. Sempre que se trata dos pensamentos do tradutor, as ideias são separadas por vírgulas. Sem dúvida, esta pontuação atribui celeridade à leitura, simulando a velocidade do desfile dos pensamentos do narrador.

No final das contas, esta história salienta que sem amor não há propósito, não há nada. Nem kartofler!

Por fim, recomendo vivamente este livro pela originalidade com que nos expõe a visão deprimida do tradutor e as descrições duma sociedade ainda atual.

 

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