A sexta semana em casa

Já vos aconteceu terem passado por um período da vida com contrariedades e só perceberem mais tarde que esses momentos menos agradáveis vos trouxeram aprendizagens úteis ao dia de hoje? Foi exatamente o que pontuou esta minha sexta semana em casa.

Face à redução de trabalho e, por consequência, à redução de recursos monetários, é urgente rever as prioridades quanto aos gastos. Sendo free lancer, é um exercício que faço com alguma frequência, mas o contexto da pandemia intensifica o factor “incerteza”. Como tal, este exercício requis maior concentração.

Foi durante o meu mergulho na revisão do orçamento doméstico, que recuei lá atrás, aos tempos da minha infância onde as ondas da instabilidade económica familiar, por diversas tentativas, quase nos afogavam. Embora naquela altura não percebesse porquê, desisti de contar as vezes em que esperei para obter um brinquedo. Deixei de contar e de pedir. Só o fazia quando era mesmo um grande desejo. O único episódio de que ainda me lembro precisamente, foi o de esperar um ano por uma boneca grande! Não soube muito bem o que sentir quando a recebi, pois demorou tanto que nem recordava que a tinha desejado. Ao invés de, mais uma vez, tentar achar uma explicação, preferi render-me aos braços da boneca.

Entre dar mais valor ao que me ofereciam e, por consequência, estimar esses presentes como se duma parte do meu corpo se tratassem, desenvolvi sobretudo a paciência e a compreensão mesmo daquilo que nem sempre entendia, nomeadamente do tempo que essas coisas demoravam para chegar até mim.

Embora doloroso na altura, hoje reconheço a utilidade deste exercício. Entre outros benefícios, neste momento permite-me elaborar com menor dificuldade esta minha lista de prioridades e, por consequência, de rentabilizar os recursos ao máximo.

Depois de olhar para trás, olhei para o futuro contado em dias, semanas e meses da minha agenda… E concluí que hoje, à semelhança de ontem, por estarmos a passar por contrariedades, talvez estejamos a desenvolver qualidades que nos serão úteis mais tarde. Amanhã. Quem sabe?

Photo by Volha Milovich on Unsplash

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