Categoria: Conclusões

Desconfio que conduzir na faixa da esquerda advém de um síndrome de inferioridade particular… Da mesma maneira que muitos compram roupas de marca para ostentarem a carteira que não têm e exibirem a vida que gostavam de ter, outros conduzem na faixa da esquerda enquanto sonham com o carro que não podem comprar ou a velocidade que não atingem.
Não conseguindo encontrar outra explicação, em vez de especular, tive a oportunidade de questionar diretamente um ou dois dos muitos protagonistas desta tendência que não se limita a uma única estação do ano, mas sim a todas.

– Porque conduzes tu na faixa da esquerda a velocidades de faixa direita?

–  Dá-me mais jeito!

Este foi o argumento comum. E ainda que tenham tentado fundamentar com outros argumentos que apelam ao coração só deles, a meu ver, o individualismo não cabe na quebra de uma regra que orienta todos!

É verdade que os protagonistas não se resumem apenas a um ou dois, são muitos mais. Também é verdade que generalizar é só fácil, mas não real. Mas uma coisa é certa:  apesar de existirem codigos, regras, orientações, cada um faz efectivamente como lhe dá jeito, não só na estrada, mas em tudo. Não admira que ninguém se entenda.

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Quando atletas competem em modalidades desportivas, os adversários têm de estar equiparados ao máximo.

Dois lutadores de judo só se confrontam se tiverem o mesmo peso e o mesmo cinto.

No caso de corridas de carro, um piloto de fórmula um só poderá competir com um piloto de um carro do mesmo gabarito.

No desporto com mais adeptos do mundo as equipas estão categorizadas por divisões. Uma equipa da primeira divisão  joga com outra da mesma divisão. Os próprios jogadores ou são juvenis ou seniores. Enfim, seja idade, peso, género, potência ou categoria só se compara o que se assemelha, o que já está à partida ao mesmo nível.

Ainda que a vida não passe de uma competição connosco próprios, há pessoas que insistem em comparar-se a outros. Até aqui tudo bem. Cada um sabe de si e é livre de escolher os seus focos. Há também pessoas que tentam desafiar-nos. Por mim, tudo bem. Mais uma vez, cada um é livre de fazer conforme achar melhor.

Agora, para que quem quer que seja se compare seja a quem for, para que a comparação seja plausível, ambos têm de estar equiparados, têm de ter o mesmo ponto de partida, têm de pertencer ao mesmo campeonato!

Este pequeno grande requisito raramente é tido em conta. Então, temos fracos a fazerem braço de ferro com fortes. Inteligentes a medirem forças com estúpidos. Enfim, uma panóplia de comparações incomparáveis.

No meu caso, nao me comparo a ninguém, embora admire algumas pessoas, mas sei que ele há gente que se compara a mim. Mas esquecem-se… Esquecem-se da minha altura, do meu peso, do meu género, mas sobretudo, esquecem-se da minha categoria! Este esquecimento vale-me a mim a vitória, logo à partida. Saio vitoriosa porque não perco tempo com o que não me faz ser melhor do que já sou!

Sou competitiva desde criança! Não é defeito,  é feitio.

Quando saí do infantário já sabia ler. O que me deixou numa posição de vantagem comparativamente aos meus colegas que ainda nem as letras reconheciam. Este adiantamento valeu muitas secas. O meu ritmo era diferente. Acabava sempre por esperar pelos outros para ver o fim do exercício, ainda que lá chegasse muito tempo antes. E lá ficava eu entediada a observá-los concentrados no seu labor.

Na leitura era idêntico. Enquanto eu lia fluentemente, os meus colegas somavam letras para chegarem a sílabas. Às sílabas acrescentavam sílabas até formarem palavras. Palavra atrás de palavra descobriam as frases. E esta aprendizagem vagarosa repetia-se dia-após-dia.
Parte da minha escolaridade desenrolou-se num ensino que alimentava esta minha tendência natural. Os testes eram entregues por ordem crescente ou decrescente das notas. Estudava com o alvo de estar sempre nos três primeiros nomes ou nos três últimos, respectivamente. Consoante a média das notas de todas as disciplinas, era atribuído a cada aluno um louvor. Podíamos receber felicitações, por termos uma média constante e acima dos 15 valores numa escala de 0 a 20, encorajamentos, caso o nosso esforço fosse notado e a média estivesse acima de 10 e abaixo dos 15. Haviam outros louvores, mas não me recordo deles. Curiosamente só fixei os melhores!

Na faculdade descobri o individualismo. Não era eu e os outros, era só eu.

– Vocês são todos adultos estão aqui porque querem. Quem quiser assistir às aulas, assiste. Quem não quiser, não assiste.

De repente, ía ter concorrentes que nem iria conhecer… E que na verdade não se importavam se estavam acima ou abaixo da média.Esta falta de concorrência direta, inicialmente, desmotivou-me bastante. Afinal, durante todo o ensino até então, tinha sido encorajada a olhar para o melhor elemento da turma a fim de criar um ponto de partida. De repente, não tinha referência, a não ser a mim mesma.

Custou-me algum tempo mudar esta forma de estar. Dias, meses, anos entre a motivação e a desmotivação. A segunda ganhou algumas vezes a primeira. Cheguei a provar o amargo das notas bem abaixo das que estava habituada. Percebi que o excesso de confiança é inimigo do rigor. Entendi melhor que sem  um esforço constante, regular, diário, atingiria pouco ou nada. Tive a certeza de que sem alvos, a longo ou a curto prazo, rumamos em direção aos nossos apetites. Enfim, a frustração deu-me pano para mangas. A frustração e a baixa auto-estima.

Hoje, passados já alguns anos, já não estudo em escolas ou universidades, mas continuo a procurar aprender, saber sobre o que me interessa e sobre o que poderá ter interesse. E continuo diariamente a constatar o que descobri na altura. Para sermos excelentes, para sermos os melhores, não precisamos de nos comparar a ninguém, a não ser ao melhor de nós próprios.

Não acabei o curso por variadas questões. Mas no terceiro ano, o meu último, atingi notas que só no secundário tinha tido o orgulho de receber. Não sei se fui a melhor comparativamente aos outros. Quando fui ver as notas, só vi mesmo as minhas! E qual não foi a alegria de ver que o melhor de mim era muito satisfatório!

Entrei na faculdade com inseguranças, muitas, e saí sem canudo, mas com a confiança de levar a bagagem pessoal necessária para abraçar o que viesse.

Confesso que não deixei de competir… continuo a fazê-lo comigo mesma!

Sou competitiva desde criança! Não é defeito,  é feitio.