Vida de emigrante

Apesar de tantos avanços, as nossas necessidades permanecem, mas nem sempre são consideradas. Por essa razão, muitos continuam a ter de optar por mudar de país para supri-las. É para essas pessoas que gostava de chamar a atenção.

Em Barcelona, à semelhança de muitas outras cidades, existem centenas de imigrantes oriundos de vários países dos cinco continentes. Uns estão legais e bem integrados, outros nem por isso. São muitos os que encontram na venda de produtos contrafeitos um meio de sustento: malas de senhora, lenços, brincos, bugigangas, lembranças da cidade e o que mais houver que não serve para nada para uns, serve de fonte de alimento para muitos outros. Contudo, não basta assentarem o pano, disporem dos produtos em cima e esperarem que os turistas escolham comprar a eles em vez de a outras tantas centenas de vendedores ambulantes ou lojistas com as mesmas cangalhas. É também preciso escolher estrategicamente o local de venda quanto à presença da polícia. Assim, enquanto uns têm papel de vendedores, outros desempenham o de sentinela. À mínima vista de um carro da polícia, os panos levantam-se do chão pelos 4 cantos formando uma trouxa que estes nómadas modernos carregam numa corrida, mais uma vez, sem rumo. A polícia, por sua vez, chega a passos lentos. É nítido que a intenção não é a de apanhar estes vendedores ilegais em flagrante venda, mas sim dar-lhes tempo para saírem o mais rápido possível. É um trabalho em vão detê-los. Pois a vida incerta e sobressaltada destas pessoas nas ruas de Barcelona vale mais a pena do que a miséria que viveriam nos seus países. A existência da supervisão quanto à aplicação das leis nunca será eficaz enquanto as leis que os homens criam não favorecer a todos.

E se tantas vezes é necessário impor as leis, outras tantas vezes, os que têm por obrigação profissional fazê-lo, rendem-se à mesma comoção com que escrevo sobre estes emigrantes. Afinal, somos todos seres humanos! E, não seremos todos nós também emigrantes de alguma maneira? Que o sofrimento possa acabar depressa e que a todos sejam dadas oportunidades iguais.

Aos que viajam por obrigação ou para salvar a própria vida, coragem!

Crónicas Maldispostas de Pepetela

Desta vez a viagem foi guiada pelo autor angolano Pepetela. De crónica em crónica vamos partilhando o ponto de vista do autor sobre o mundo, mais precisamente sobre a realidade social, política, económica, cultural e, também, quotidiana em Luanda.

A melhor maneira de conhecer uma cidade é escolher um guia local e foi o que fiz. Ao contrário do título, a boa disposição marcou esta viagem. Nunca fui a Luanda, mas já a conheço um bocadinho.

Gosto de crónicas ( como se ainda não se tivesse percebido)! Assemelham-se a conversas que alimentaríamos naturalmente num passeio entre amigos. Aconselho este passeio a todos os que apreciarem um discurso direto com uma ligeira pitada de poesia.

E vocês, têm algum livro de crónicas que me queiram recomendar?

A primeira semana de setembro

O tempo continua a voar sem esperar por ninguém. Apenas a uma semana atrás encontrava-me nas minhas inesquecíveis férias (das quais vou falar em breve aqui) com amores do meu coração. O sol queimava de tão quente e a sua luz encandeava por brilhar tão intensamente. Hoje, primeira semana de setembro, estou sentada na minha casa de forma estratégica para aproveitar a claridade do sol que as nuvens decidiram obstruir de há uns poucos dias para cá. Gosto desta estrela e a sua presença faz-me diferença, mas não dependo apenas dessa luz para me animar. A apatia é da meteorologia, não minha.

E foi assim que decidi encarar a primeira semana de setembro, foi assim que abracei este novo ano lectivo, 2018/2019. Depois de umas férias entre montanhas e rios, banhos de água salgada, passeios na cidade e uma ilha rodeada de mar cristalino em excelente companhia, o mês de setembro é equivalente ao dia de segunda-feira após um fim de semana com mais de quarenta e oito horas. Mas para que possam haver mais férias, tem de existir trabalho e por isso foi com grande motivação que regressei às minhas responsabilidades pessoais e profissionais.

Muitos dos meus alunos ainda não chegaram, o que permitiu que a primeira semana começasse gentilmente a meio gás. Aproveitei para me reorganizar pessoal e profissionalmente, para retomar a rotina passo a passo, para planificar (o que consigo) de forma realista. Entre outros projetos (sobre um deles vou ter novidades em breve), espero poder ampliar o meu trabalho voluntário, aprofundar os meus conhecimentos na minha área por aperfeiçoar uma língua e continuar a escrever. Gosto de aproveitar as férias até ao último minuto, mas reconheço que dispor de uns dias para recalcular o novo percurso faz muita diferença.

E vocês? Como foi a vossa primeira semana de setembro?

Photo by Manasvita S on Unplash

( In ) dependência

Nestes tempos modernos, o individualismo reina. A cada elemento da família é atribuído um carro, um telemóvel, uma televisão… e por isso as casas querem-se cada vez maiores… A definição de nós próprios, a aceitação do nosso eu é exaustivamente incentivada pela imposição da nossa individualidade tantas vezes medida pela distância que estabelecemos com os outros: “o meu eu é maior do que o teu e predominará.” “ Quem sabe da minha vida sou eu.” “Ninguém tem o direito de intervir na minha vida.” Estes pensamentos ocupam cada vez mais a mente de um número também cada vez maior de pessoas.

Mas a meu ver, até neste ponto a nossa incongruência é gritante. Como podemos nós medir a nossa individualidade ou desenvolver o nosso eu se nos isolarmos? O isolamento leva a que sejamos apenas um (anulando assim a individualidade).

Apesar de todo este esforço, por muito independentes que julgamos precisar de ser e achar que o sabemos ser, tenho notado que num campo da nossa vida a corrida é no sentido contrário, ainda que a tentemos disfarçar.

Emocionalmente, quanto mais companhia de qualidade tivermos, mais felizes somos. Não fomos criados para estarmos sós. E sabemos disso porque esse é o objectivo da nossa incessante procura! O problema é que nem sempre sabemos escolher. Há males que vêm por bem e este é um deles. Não escolhemos a família onde vamos nascer, mas o facto de existirem pessoas que nos conhecem minimamente, pessoas que possam contar ou recordar-nos um pouco ( ou muito) da nossa história, representa um privilégio. Ainda que carregados de defeitos, nós e os nossos familiares, existem alguns elementos com os quais nos identificamos e naturalmente aceitamos de coração aberto. E neste preciso momento, a nossa individualidade ganha vida e sentido porque não estamos sózinhos.

É bom ter casas grandes para termos mais espaço ou até para receber mais gente, mas se as casas forem pequenas, nessa hora, não importa porque o que queremos mesmo é estar mais perto! E estou certa de que quem se afasta, muitas das vezes, é porque quer ficar muito mais próximo.

Photo by Ray Rui on Unsplash

Testemunho 5 Marta & Tiago

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O que faziam?

Eu era IT Manager e a Marta Directora Técnica de farmácia.

O que fazem agora?

Somos proprietários e anfitriões de um Turismo Rural no Algarve.

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

O nascimento do nosso filho transformou-nos e com essa transformação veio a vontade de mudar. 

O que vos impulsionou a passarem à ação?

A sensação de que com a vida que levávamos não teríamos o tempo que consideramos necessário para uma vida saudável em família e poder acompanhar o crescimento do Francisco assim como dar-lhe a educação que gostaríamos.

Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

Fácil nunca é! Adaptarmo-nos a fazer uma coisa para a qual não tínhamos experiência exige sempre um esforço adicional, mas, acima de tudo, tem sido bastante motivante ver o resultado do nosso esforço espelhado na cara de quem nos visita e nos comentários na Internet.

O que procuram?

Procuramos fazer sempre mais e melhor pelos nossos clientes, mas sem nunca esquecer que o que nos levou a trocar de vida: ter tempo de qualidade em família.

Já encontraram?

O equilíbrio nunca é fácil, pois quando trabalhamos para nós o trabalho nunca acaba. É preciso ter disciplina para nos impormos rotinas que nos permitem parar de vez em quando.

Já se arrependeram em algum momento?

Sempre acreditámos que iria ser difícil. Ambos fazíamos o que gostávamos e tínhamos sucesso nisso, mas a verdade é que hoje já não nos vemos a voltar ao que fazíamos. Desde pequenos somos guiados para estudar, para ir para a faculdade, para arranjar um emprego na área em que nos formamos e depois ter sucesso nessa função e esquecemo-nos muitas vezes que há outras alternativas, outros caminhos. Somos muito felizes a fazer o que fazemos hoje, esforçamo-nos muito para melhorar diariamente e, no meio de toda a responsabilidade e trabalho, temos tempo para estar em família, para vermos o Francisco crescer e para aproveitarmos a vida à nossa maneira. 

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Testemunho 4 Mia

Maria João Freitas – Mia

O que fazias?
Trabalhava em TV, na produção de programas de entretenimento, em Lisboa. Era uma apaixonada pelo que fazia.

O que fazes agora?
Estou em Londres há dois anos. E já não trabalho em TV.
Continuo a trabalhar na mesma indústria mas noutros formatos e como editora de vídeo. A minha grande mudança foi a de país, e isso trouxe-me outras mudanças atrás e a vida profissional foi uma delas.

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?
Eu sempre fui muito independente e desde miúda sempre tive vontade de ir para fora, de conhecer uma nova cultura, de abrir horizontes. Nunca parecia ser a altura certa – acho que fui sempre muito feliz o que dificultava a mudança em si – mas os sintomas estavam todos lá em forma de sonho.
Talvez o facto de viajar bastante com os meus pais me trouxe isso também. Fascinava-me ver as diferenças cada vez que conhecia um lugar novo. As pessoas, a forma como interagiam, as ruas, os cheiros, o movimento… penso que sempre vivi numa urgência de conhecer mais e mais, e mudar de país está implícito.

O que te impulsionou a passagem à acção?
Uma altura menos boa da minha vida. E a minha mãe.
Tinha-me despedido do trabalho porque às vezes razões externas levam-nos a repensar as nossas escolhas. E era a altura certa e a minha mãe fez-me ver isso. Todos temos sonhos e os sonhos nunca passam disso porque deixamos sempre ‘para um dia’. E esse dia tinha chegado para mim – ou era ali ou nunca seria.
Às vezes é melhor nem pensar muito. Mudei apenas.

Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?
O maior desafio para mim é estar longe das minhas pessoas. E do sol. E isso nunca vai tornar-se fácil – apenas menos difícil.
Ao início tudo nos põe à prova, as mais pequenas coisas. Tive de trabalhar num pub para pagar a renda e, mesmo tendo a sorte de arranjar um trabalho na indústria, tive de mudar de ramo e foi difícil porque produção televisiva era e continua a ser a minha paixão.

Mas o truque é pensar no que sonhámos até ali e acreditar que depois dos passos todos que temos de dar para trás, virá uma enorme recompensa. E sou hoje uma mulher bem mais forte.

O que procuras?
Procuro sempre conhecer, crescer e criar as melhores memórias que possa.
Sei que um dia isto vai acabar e vou querer sorrir e dizer às pessoas “que bons tempos aqueles em que estive em Londres” e sentir orgulho em mim.

Já encontraste?
Para dizer a verdade acho que sim! Obviamente há sempre mais para conhecer, para crescer e há sempre mais memórias para criar, mas passados estes dois anos sinto que o meu sonho está concretizado. Mas encontrei um grande amor também. E agora só tenho de esperar que ele queira voltar comigo para Portugal!

Já te arrependeste em algum momento?
Já. Lembro-me que chorei muito ao início, foi uma mudança demasiado radical. Não foi só de país mas de qualidade de vida e quando me confrontei em condições completamente diferentes das que tinha o arrependimento surgia, às vezes.
Um dia quando ainda estava a trabalhar em bares, mandaram-me limpar uma casa de banho. Eu limpei-a e no fim do meu turno só queria voltar à minha vida – senti que a mudança e que o meu sonho não tinham resultado. Mas ainda bem que respirei fundo e a força venceu.

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Mudar (parte 2)

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Photo by Ross Findon on Unsplash

Segundo todos os testemunhos publicados até hoje, mudar de profissão requer coragem e determinação. O Luís ,  a Sandra e a Vanda mudaram de profissão, mas mantiveram-se em casa, geograficamente falando.

Como será a mudança para quem inicia uma nova atividade profissional numa cidade ou até num país diferente?

Nos próximos dias teremos o privilégio de ouvir, na primeira pessoa, os testemunhos de quem, para além de abraçar novos sectores profissionais, decidiu também ir viver para outras terras.

Pára, lê e inspira-te!

anika-huizinga-477472-unsplashPhoto by Anika Huizinga on Unplash

Testemunho 3 Vanda

Vanda da Costa Domingos

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O que fazias?

Sou da área de Gestão e trabalhei, numa primeira fase, em auditoria e, cerca de 10 anos, como financeira em ONG’s.

O que fazes agora?

No presente dedico-me às terapias holísticas, leitura da aura e estudo astrologia.

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

O sintoma de tristeza. A sensação de que não estava no meu caminho sempre me acompanhou desde o início da minha carreira profissional, mas foi-se intensificando perto dos 38 anos.

O que te impulsionou a passares à ação?

O que me deu mais força foi o meu processo de auto descoberta, que incluiu terapia de hipnose e muitas formações e cursos de ciências holísticas, ter mostrado claramente que a minha vida tinha que mudar, nomeadamente a minha carreira profissional.  Por outro lado, o fato de que estava a caminho dos 40 anos. Era naquele momento ou nunca. E, por último mas não menos importante, foi receber o apoio dos amigos e da família. 

Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

Não tem sido um processo fácil, mas nenhum processo de mudança o é, senão muitas mais pessoas já o teriam feito. No meu caso, os maiores desafios são aprender a lidar com a incerteza material (não existe um rendimento fixo como outrora e vivemos num mundo material) e de apresentar ao público o meu trabalho, visto que sou pessoa introvertida.

O que procuras?

Procuro, em breve, dedicar-me a 100% à minha grande paixão, a astrologia,  e continuar a dar o meu contributo para que as pessoas que chegam até mim possam ir mais em paz consigo próprias, mais conscientes das suas potencialidades e dos seus desafios, para que também elas consigam encontrar o seu propósito de vida e sejam mais felizes.

Já encontraste?

Ainda não encontrei tudo o que procurava, mas faz parte da magia do nosso processo de crescimento e evolução, a vida traz-nos tantas coisas maravilhosas quando estamos abertas a ela.

Já te arrependeste em algum momento?

Nunca me arrependi da minha decisão porque sei que estou no caminho certo.

Testemunho 2 Sandra

Sandra Ramos

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O que fazias?

Tinha uma empresa que se dedicava à contabilidade, auditoria e economia.

O que fazes agora?

Abri um Estúdio de Yoga. Concilio esta atividade com a função de Diretora de um Centro Comunitário, uma Ipss que se dedica a ajudar o próximo.

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

A sensação de esgotamento físico e mental. Senti fisicamente as causas da ansiedade que o meu trabalho me provocava. Senti-me a sufocar. Senti que me estava a perder e decidi reencontrar-me. Percebi que tinha de repensar a minha vida. A vida de stresse e a validação do meu profissionalismo já não faziam parte de mim. A falta de tempo e de energia, assim como as horas de trabalho pela noite dentro, mostraram-me que o caminho a seguir já não era por ali. Tornou-se muito mais importante dedicar tempo de qualidade aos meus filhos, família e amigos. 

O que te impulsionou a passares à ação?

Primeiro abrandei, depois parei e pensei. Voltei a pensar muito, sobretudo em alternativas ao sufoco que sentia quando chegava ao escritório. Comecei então por mudar a minha atitude perante a vida, através de um processo de autoconhecimento. Aceitei quem eu era. Acredito que nós já somos quem procuramos. Apesar de não controlar o que se passava no exterior podia controlar a minha reação interna. Tratei de prestar atenção aos detalhes no meu trabalho, enfrentando o desafio de gerir pessoas, clientes e tempo. Controlei as minhas expetativas tolerando a diferença dos outros, com peito aberto e de modo positivo, aceitando que somos todos seres humanos, que é normal falhar, que podemos sempre voltar atrás e tentar de novo. Depois, iniciei uma nova fase dedicada à meditação, à espiritualidade, acreditando que existe uma força mais forte que nós, que nos une e que nos dá força para acreditarmos na mudança. Tudo parte de nós, nós podemos decidir a todo o momento. Comecei a procurar dentro de mim o que me fazia feliz, prestando atenção à minha volta; investi em formação na área que me interessava e preparei-me para mudar. No meu caso, trabalhar com crianças era o que me fazia feliz. Aos poucos comecei a delinear uma estratégia para ir alterando de vida sem prejudicar as pessoas que dependiam diretamente do meu trabalho. Inscrevi-me como voluntária num Centro Comunitário, trabalho esse que me trouxe bastante realização pessoal.

Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

O maior desafio foi assumir o medo e reunir a coragem necessária para iniciar um novo projeto de vida. Foi um ano cheio de desafios. Tive que explicar aos funcionários, clientes e parceiros de negócios que já não queria estar neste mundo empresarial. Tive que enfrentar a minha família e os amigos e explicar o porquê de tal decisão. Se para uns é inspirador, para outros é motivo de preocupação e estranheza. Algumas pessoas não percebem a necessidade de mudança, cada um segue a sua vida a quem está ao lado passa despercebido; acontece com todos, vivendo nós num mundo cada vez mais individual. Outro grande desafio foi o facto de tentar sobreviver com menos dinheiro, mudar os meus filhos de escola sentindo culpa por alterar a vida deles em prol da minha nova realidade financeira. A nível pessoal, foi desafiador abrir os olhos e ver-me com uma profissão totalmente diferente. Ver-me e não me rever numa nova função. Foi um choque a adaptação a uma nova realidade, alcançada, mas não interiorizada. Também pesou o facto de não conseguir controlar tudo, tal como fazia com a minha anterior profissão, que exercia há quase 20 anos. Tive receio de não conseguir desempenhar bem esta nova função. Aprendi a olhar para mim aceitando que tinha um novo papel que foi escolhido por mim e aproveitando a segunda oportunidade que a vida me havia dado: um presente há muito ambicionado e a alegria de poder trabalhar com crianças, tanto no estúdio através do papel de professora de yoga para crianças tal como no Centro no papel de gestão geral da Instituição ajudando os outros a alcançarem uma vida melhor.

O que procuras?

Procuro ser honesta comigo e com quem me rodeia, seja em pensamentos, atos ou ações. Procuro ser feliz e agradecida todos os dias porque é maravilhoso trabalhar no que gostamos.

Já encontraste?

Sim, estou a adorar minha nova vida profissional que influenciou positivamente a minha vida pessoal. Tive muita sorte com a vida que me calhou, sou muito feliz. Mesmo que, por vezes, seja difícil dar o primeiro passo, olhamos para trás e vemos que valeu a pena! Todas as dúvidas, incertezas e dificuldades fizeram parte do processo.

Já te arrependeste?

Não! Mudei na altura certa. Não poderia ter sido mais cedo nem mais tarde. Foi como se me estivesse a preparar para este momento. Posso ter menos dinheiro, viajar menos, comprar menos coisas, mas tenho a riqueza de acordar todos os dias feliz e, por consequência, contribuir para fazer os outros felizes.

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Testemunho 1 Luís

Luís Sanganha

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O que fazias?

Fui exclusivamente produtor de programas de televisão (na área do entretenimento) durante aproximadamente 8 anos.

O que fazes agora?

Atualmente, divido-me entre projetos: alguns ainda ligados à área profissional que sempre desenvolvi (nomeadamente a produção de eventos, publicidades, conferências e services) e concilio com aquele que sempre foi o meu grande sonho: a Música (estou numa Companhia de Teatro onde participo em alguns Musicais infantis, tenho um duo de guitarra e voz e faço algumas participações noutros contextos, cantando onde existem convites).

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

Penso que ele possa ter aparecido sem sequer “dar-lhe voz” durante algum tempo. Sempre gostei do trabalho que desenvolvia assim como sempre me aliciaram os desafios que me foram sendo colocados, numa óptica de crescimento e amplitude profissional. No entanto, também sei que interiormente sempre fui ansiando e sonhando com o dia em que poderia explanar e projetar aquilo que sempre me acelerou o ritmo cardíaco: a transmissão das emoções através do canto. E, sem dar conta, não que tivesse colocado em causa a dedicação diária ao trabalho que fazia, mas percebi que a motivação para permanecer a 100% estava prementemente a ser, cada vez mais, inversamente proporcional à vontade de tentar.
O que te impulsionou a passares à ação?

Parafraseando e adulterando um pouco uma frase de Blaise Pascal, «O “acaso” tem razões que a própria razão desconhece». Muito embora a profissão de produtor de TV esteja estruturada como trabalho independente, a verdade é que estava já há alguns anos na mesma empresa, quando esta terminou o vínculo laboral que fomos mantendo ao longo do tempo. E foi nesse período de reflexão (há cerca de um ano), após vários anos de trabalho intenso, que pude repensar qual o rumo a seguir: ou continuaria a tentar trabalhar no meio e ampliava o espectro de empresas laborais e experiências profissionais, ou teria chegado finalmente o momento de arriscar e tentar poder fazer profissionalmente aquilo que pertencia apenas ao Sonho. Naturalmente, intuí que talvez tivesse chegado esse momento e escolhi a segunda opção.
Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

Não posso categorizar como sendo totalmente fácil a mudança em si, na medida em que somos obrigados a rever os nossos alicerces mais primordiais. Mas é nas escolhas que vamos fazendo, que diferenciamos sempre entre o que vale a pena abdicar e as coisas sem as quais não podemos viver. Na verdade, acredito que muitas vezes, para darmos passos em determinadas direções, temos que primeiramente recuar alguns também. E foi isso mesmo que fiz! Materialmente fiquei apenas com o essencial (motivou uma mudança de casa, novos hábitos pessoais) e aprendi a ordem do desapego, passando a reflectir melhor sobre as minhas opções quotidianas. E talvez este tenha sido o maior desafio ao longo do tempo, uma vez que te desajustas daquilo que é socialmente o padrão e a que todos somos ensinados desde sempre: enquanto todos lutam para ter mais, tu estás repentinamente a fazer por aparentemente ter menos e a abdicar do que te pode manter a vida como a conhecias até então. Mas como tenho por hábito dizer: “menos dinheiro, mas mais feliz por fazer o que mais gosto”.
Mal sabia eu de que, por antagonismo, estaria a amadurecer do ponto de vista humano. E tenho aprendido também a viver com Liberdade, pois nem sempre é pacífico ficarmos constantemente a depender apenas de nós próprios e das nossas escolhas para corresponder às obrigações primárias da vida todos os meses. 
Depois, há ainda outro ponto: o exercício do canto é muito semelhante ao exercício do resto do corpo. Se não o praticas regularmente, corres o risco de enferrujar. Foi nessa fase de mudança que decidi também recorrer ao estudo e à prática do mesmo, confrontando-me com as minhas próprias dificuldades e/ou características que teriam ficado pelo caminho. E, claro, recuperar auto-estima artística, avaliando se as “pernas ainda têm força para correr”.

O que procuras?

Procuro poder subsistir unicamente como intérprete musical, para ter a possibilidade de ter tempo e espaço criativo. Tenho como finalidade poder “servir a Música” (e não servir-me dela!) a tempo integral. Mas como ouvi uma vez o Maestro José Calvário dizer: “As casas constroem-se pelos alicerces e não pelo telhado”.
 
Já encontraste?

Felizmente tenho tido muito boas surpresas pelo caminho. Ainda não encontrei exatamente o que possa ser pretendido, mas a verdade é que de facto a minha vida deu uma grande volta. Deixei de ser apenas espectador (seja na ida a um espectáculo ou enquanto produtor de TV), para poder regularmente ser eu partilhar as emoções que tenho em cima de um palco (conciliando os projetos mencionados acima). E a verdade é que é dando pequenos passos que o caminho se tem vindo a construir. 

Já te arrependeste?

Naturalmente que todos nós podemos ter, num momento ou outro, dúvidas se estamos certos nas nossas convicções. E até receio da falha. Naturalmente que esse medo, uma vez por outra, pode bater à janela. Mas também é ele que pode ter a ambivalência de nos fazer andar para a frente.
Não estou de todo arrependido. Acho que estamos sempre a tempo de tentar perseguir aquilo que acreditamos ser o que mais nos realiza. A efemeridade do tempo e da vida não nos permite deixar que tudo passe sem o esforço da tentativa. E na verdade, posso afirmar que dentro de tudo o que já apreendi, existem duas grandes noções que se destacam: apenas tentando e arriscando poderemos fazer o tal caminho que vive na esfera do desejo/sonho; e, da mesma forma que consegui dar alguns passos atrás para poder “andar para a frente”, posso sempre voltar a recuar mais ainda e tentar redefinir uma nova direção. Porque, na verdade, acredito que importa muito mais como nos sentimos e o que nos faz felizes em detrimento daquilo que à priori pode ser considerado já por nós conquistado, mas que não nos faz viver em pleno.

Luís Sanganha

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