Célia Correia Loureiro e a vontade de efabular a realidade

Escrever - Palavra de autor : Célia Correia Loureiro e a vontade de efabular a realidade

Foram as histórias, contos e novelas que lia, ouvia e via em pequena que a levaram, mais tarde, a sentir vontade de efabular a realidade. Hoje, é no lusco-fusco da tardinha, ao som de notas musicais, que dá vida à suas profundas personagens. Vamos conversar com a autora Célia Correia Loureiro.

O que lhe deu vontade de escrever livros?

Sempre tive contacto com histórias, desde pequena. Livros com os contos habituais, filmes de animação, mesmo as novelas a que a avó assistia me cativavam pelas suas histórias. Desde cedo que ouvia uma história estática (como a Branca de Neve e os Sete Anões), pegava nos lápis e pintava enredos diferentes, finais alternativos para aquelas personagens.

Mais tarde, senti vontade de efabular muito do que me acontecia; procurava tirar conclusões, perceber o significado dos vários momentos da vida. E fazia-o por prazer, nada me enchia de satisfação como isso.

Onde encontra inspiração?

Diria que a música tem um papel muito importante no modo como dirijo os meus livros.

A ideia inicial geralmente parte de algum acontecimento específico, de uma mensagem que quero passar. Como no caso de “Demência”, que a minha missão era retratar de um modo realista uma realidade de violência doméstica. A música entra em cena para me ajudar a explorar essas emoções, para atribuir um tom, uma voz às cenas que descrevo. Por esse motivo, associo sempre uma série de canções a cada romance que escrevi. No caso do livro mencionado, a banda sonora de “Goodbye Lenin” foi uma constante.

O que retratam o(s) seu(s) livro(s)?

Creio que o ponto comum a todos os meus livros é a força das mulheres perante situações de adversidade.

Demência retrata uma mulher destruída por abusos físicos e psicológicos que reganha amor-próprio e confiança aos poucos.

O Funeral da Nossa Mãe centra-se numa mãe ausente, mais focada no seu amor não-correspondido do que no bem-estar e nas necessidades das suas três filhas, e depois no modo como essa negligência afetou a personalidade das filhas.

A Filha do Barão é sobre uma menina de 15 anos que se vai tornando mulher no século XIX, diante da obrigação de se casar, de gerir uma quinta e de sobreviver aos avanços das tropas de Napoleão. É sobre a resiliência, mas também as lutas subtis de mulheres quase sem direitos, mas ainda assim senhoras do seu próprio destino.

Uma Mulher Respeitável é, uma vez mais, sobre uma mulher maltratada pela sociedade que, por via da sua beleza e inteligência, procura vingar-se de quem lhe causou desgosto. Também esta mulher, apesar de singularmente forte e determinada, tem de enfrentar os desmandos de um marido e as regras rígidas da sociedade do século XIX para com o seu género.

Por fim, Os Pássaros remexem mais a fundo na condição da mulher apaixonada e da maternidade. A personagem principal, idealista e romântica, apaixona-se, é vítima do despeito do homem que ama, e mais tarde consolida essa paixão, mas uma desgraça inimaginável rompe com a relação e com a vida como ela a conhecia. É, no caso, uma novela que julgo intensa sobre um homem e uma mulher e o modo como ambos se refazem de um acidente trágico.

Hábitos de escrita: Onde escreve? Em que momento do dia? Quanto tempo dedica à escrita?

Costumo escrever na minha sala ou cozinha, no meu portátil. Sinto mais chamamento para a instrospecção quando a tarde começa a cair. Naquele lusco-fusco que antecede a noite, é quando começo a pensar que era boa ideia sentar-me e escrever qualquer coisa. Quando funciona e o livro me agarra, a escrita arrasta-se pela noite dentro.

Em fases mais preguiçosas, nem sequer chego a ligar o computador. Nos últimos meses não dediquei tempo algum à escrita, mas passei o verão passado, por exemplo, a escrever várias horas por dia um romance que, espero, há de sair em 2021.

Improvisa à medida que escreve ou conhece o fim antes de escrever?

Improviso. Muitas vezes estou convicta do início do livro, e também do fim a que me proponho.

Há pouco tempo alguém disse que o difícil, para o escritor (diria que também para o leitor) é enfrentar o meio do livro, aquela parte entre a premissa inicial e o que lhes é presenteado no final. É muitas vezes aí que surgem os problemas, e também na escrita é o meio que assusta.

Quantas vezes não comecei um livro cheia de ideias e de energia, com uma premissa sólida, e depois não sei que meio dar à narrativa?

Isto é, trata-se de um romance sobre uma filha que julga que o pai a abandonou, mas no fim do livro descobre que o pai morreu num acidente logo após deixá-la. É fácil começar a explorar o sentimento de abandono da filha, o modo como cresceu a sentir-se rejeitada, e como agora é uma mulher algo fria e pouco dada. Também me é fácil imaginar o clímax, em que ela descobre que o pai nunca a deixou, simplesmente morreu num acidente e não pôde regressar a casa. É-me fácil imaginá-la a pôr a sua vida toda em perspetiva face a essa descoberta. Mas como preencher a rotina pelo meio? Como torná-lo interessante? É esse o maior desafio.

Por esse motivo, diria que conheço sempre o início e o fim dos meus livros (ainda que, ao ganhar vida própria, algumas personagens exijam desfechos diferentes dos que imaginei de início). O meio é uma incógnita.

Qual é o seu livro preferido?

Nos últimos meses, os meus livros favoritos alteraram-se significativamente, porque também me afastei mais de literatura contemporânea e dediquei-me mais a ler “os clássicos”. Adoro “E Tudo o Vento Levou”, creio que merece o título de favorito.

Mas também me apaixonei por “A Morte de Ivan Iliitch”, “Os Irmãos Karamazóv”, “O Fio da Navalha”, e tantos outros.

Recentemente, li “Guerra e Paz” e tornou-se um dos meus livros favoritos.

Ler é a melhor coisa do mundo!

 

Uma breve mensagem de incentivo para quem gosta de escrever.

Há pouco tempo fiz um post no meu blogue sobre publicação. Não é o mesmo que escrever, mas parece-me importante para quem escreve e quer publicar: https://castelosdeletras.blogs.sapo.pt/a-auto-publicacao-88453

Para quem quer apenas escrever, aconselho a fugirem dos clichés. A fugir dos temas que já foram explorados uma, e outra, e outra vez. Aconselho-os a focarem-se nas relações e no desenvolvimento das personagens, e a porem-se no lugar deles para não saírem pessoas unidimensionais e enredos inverosímeis. 

Muito obrigada, Célia!

 

Podemos seguir o trabalho da Célia em: 

 

No Instagram: https://www.instagram.com/celiacorreialoureiro/

Nos seus dois blogues:

https://castelosdeletras.blogs.sapo.pt/ sobre leituras e sugestões de leituras. https://celiacorreialoureiro.blogs.sapo.pt/ este é sobre assuntos que me ocorre comentar.

 

 

 

Os livros da autora Célia Correia Loureiro

2 Comments

Deixe uma resposta

*