Escrever ao improviso com Joana Bértholo

Fotografia por Shelby Miller, Unsplash
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Dentre contos, literatura juvenil e romances, é no desafio desta última forma de narrativa que a nossa convidada de hoje mais se deleita. Apesar de gostar muito de dormir, é de manhã que lhe sabe bem escrever ao improviso. Ao contrário da sua escrita, esta entrevista foi planeada. Não conheço todo o trabalho desta autora portuguesa, não tão jovem por estas bandas da escrita, mas o pouco que conheço chegou-me para querer saber mais. Hoje partilho convosco a entrevista a Joana Bértholo.

O que lhe deu vontade de escrever livros?  

Terá sido lê-los. Quando senti o que pode um bom livro fazer por um leitor.

Onde encontra inspiração? 

No escrever. O que mais me inspira é mesmo lançar-me num texto, deixar que o processo me surpreenda. Às vezes não são claros os limites do texto: tudo em redor parece dialogar com o que se está a escrever e, nesse sentido, tudo é potencialmente inspirador.

Hábitos de escrita: Onde escreve? Em que momento do dia? Quanto tempo dedica à escrita?

Gosto das manhãs, quanto mais cedo melhor. Nem sempre é possível, porque também gosto muito de dormir e, pior, gosto de dormir muito! Ainda assim, as melhores fases são aquelas em que me consigo levantar muito cedo, ir directo para a mesa de trabalho (viver sozinha ajuda) e perder noção do tempo até o almoço (um compromisso ou a necessidade de) não me permitir continuar. De tarde aproveito para ler, rever, trabalhar em detalhes ou investigar, já raramente a escrita acontece. Nunca escrevo de noite.

Improvisa à medida que escreve ou conhece o fim antes de escrever? 

Improviso. Sigo imagens fortes, algumas noções de estruturas, de ritmo, mas raramente sei o que acontece na história (se houver enredo…) ou onde me irá levar. Dito isto, também esboço mapas, estruturas, tabelas, listas, representações visuais que me ajudem a ter noção do todo, mesmo que não conheça a espinha dorsal do livro ou do texto até o ter quase pronto.

Qual dos seus livros prefere e porquê? 

Não tenho um favorito. Com cada um procurei desafiar-me de forma diferente e cada um me levou numa viagem distinta.

Já escreveu um livro de contos, vários romances e um livro de literatura juvenil. O romance será o seu género preferido enquanto escritora? E enquanto leitora? 

Sim, talvez seja. Gosto muito do desafio da forma em extensão, e da necessária morosidade. Gosto de andar perdida na ordem dos capítulos e ir-me encontrando com o tempo. Estar a trabalhar num detalhe do todo. Um romance de mil páginas escreve-se parágrafo a parágrafo, frase a frase; acho que é isso que me põe no lugar, que me ensina algo sobre a vida e o mundo enquanto escrevo.

Enquanto leitora sou mais eclética. Leio ficção e ensaio, teatro e poesia. Gosto muito de ler contos, admiro muito um bom contista.

Tem algum livro preferido? 

Não, de todo, mas tenho uma lista longa de livros que sei que foram marcantes (há uma lista potencialmente mais longa dos que não sei como me marcaram, e esses quiçá importem mais). Posso enumerar uns quantos: «Um Homem Que Dorme» e «A Vida: Modo de Usar» de Georges Perec; «Perto do Coração Selvagem» e «A Paixão Segundo G.H.» de Clarice Lispector; «A Noite e o Riso», Nuno de Bragança; «Húmus», Raúl Brandão; «Campânula de Vidro», Sylvia Plath. Estes são os que me ocorrem hoje; a lista amanhã seria outra.

Uma breve mensagem de incentivo para quem gosta de escrever. 

Todos os escritores são diferentes e a prioridade é perceberes o que funciona melhor para ti, o que te dá mais gozo, em que circunstâncias chegas ao teu melhor trabalho; no fundo, conheceres-te.

Se calhar leste nesta entrevista que eu escrevo de manhã cedo, mas tu gostas de dormir até tarde e escreves melhor de noite; se calhar admiras muito uma outra escritora, ou escritor, que são muito prolíferos, mas tu avanças pouco a pouco e demora tempo até veres resultados; não há certo e errado.

Por muito que exista afinco e empenho envolvidos em escrever, que nunca deixe de te saber bem e de ser até, quem sabe, divertido.

 

Muito obrigada, Joana.

Para acompanharmos o trabalho desta autora:
Website: www.unscratchable.info

Instagram: @joanabertholo

 

Joana Bértholo
Joana Bertholo, escritora. Lisboa
JOANA BÉRTHOLO: Livros
JOANA BÉRTHOLO: Livros

 

 

 

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