Nem todos os livros foram feitos para ficar eternamente na estante. Neste texto pessoal e reflexivo, descobre por que às vezes retirar um livro do mundo é um gesto de amor.
Um livro parado é um livro triste
Tenho muitos livros. Demasiados, talvez. E como o espaço não cresce, tenho aprendido a praticar o desapego. Não é fácil. Cada livro tem um rosto, uma memória, um tempo. Mas há livros que, por mais que os ame, sei que não voltarei a reler.
E custa-me vê-los ali, a olhar para mim, parados.
Livros não foram feitos para esperar eternamente numa estante. Foram feitos para andar de mão em mão, para serem lidos, riscados, chorados, entendidos — ou até esquecidos. Mas nunca ignorados.
O valor de um livro em movimento
Sempre que posso, dou livros à biblioteca. Livros que ainda têm caminho pela frente. Prefiro perdê-los do meu olhar e sabê-los em movimento, do que guardá-los como troféus imóveis. Porque um livro parado é um livro triste — e um livro triste não cumpre o seu propósito.
O livro que ficou comigo
Mas há um livro que não darei.
O meu livro. O meu exemplar. Fica comigo, claro. Com o carinho — e com a tristeza — de quem sabe que, neste momento, ele está parado também noutras estantes. Estantes de uma editora que não o entendeu. Não por má vontade. Talvez apenas por desencontro.
Como às vezes acontece com pessoas: há quem entre na nossa vida esperando outra coisa. E depois, não sabe o que fazer connosco.
Retirar um livro também é cuidar
Decidi, por isso, retirar este livro do mercado. Guardá-lo. Resgatá-lo. Porque mais me custa vê-lo esquecido do que tê-lo apenas comigo.
Há livros que, quando não têm lugar no mundo, voltam para casa. Talvez um dia volte a lançá-lo — talvez não. Mas ele está onde deve estar por agora: no lugar de onde nasceu.
Contra a corrente, por escolha
Curiosamente, tomo esta decisão numa altura em que tantos autores estão a lançar novos livros, em plena época de Feira do Livro. É um tempo de festa literária — e eu sigo noutra direção.
Mas nem sempre ir contra a corrente é errar. Às vezes, é apenas ouvir a nossa própria bússola.
Onde tudo recomeça
Hoje não trago um livro novo, mas uma decisão antiga que finalmente amadureceu. Retirar um livro também é um gesto de amor. Dar-lhe tempo. Dar-me tempo.
Porque há livros que, quando não encontram o seu lugar no mundo, voltam para casa e talvez seja aí que tudo recomece.