🕊️ Quando os livros voltam para casa

Nem todos os livros foram feitos para ficar eternamente na estante. Neste texto pessoal e reflexivo, descobre por que às vezes retirar um livro do mundo é um gesto de amor.

Um livro parado é um livro triste

Tenho muitos livros. Demasiados, talvez. E como o espaço não cresce, tenho aprendido a praticar o desapego. Não é fácil. Cada livro tem um rosto, uma memória, um tempo. Mas há livros que, por mais que os ame, sei que não voltarei a reler.

E custa-me vê-los ali, a olhar para mim, parados.

Livros não foram feitos para esperar eternamente numa estante. Foram feitos para andar de mão em mão, para serem lidos, riscados, chorados, entendidos — ou até esquecidos. Mas nunca ignorados.

O valor de um livro em movimento

Sempre que posso, dou livros à biblioteca. Livros que ainda têm caminho pela frente. Prefiro perdê-los do meu olhar e sabê-los em movimento, do que guardá-los como troféus imóveis. Porque um livro parado é um livro triste — e um livro triste não cumpre o seu propósito.

O livro que ficou comigo

Mas há um livro que não darei.

O meu livro. O meu exemplar. Fica comigo, claro. Com o carinho — e com a tristeza — de quem sabe que, neste momento, ele está parado também noutras estantes. Estantes de uma editora que não o entendeu. Não por má vontade. Talvez apenas por desencontro.

Como às vezes acontece com pessoas: há quem entre na nossa vida esperando outra coisa. E depois, não sabe o que fazer connosco.

Retirar um livro também é cuidar

Decidi, por isso, retirar este livro do mercado. Guardá-lo. Resgatá-lo. Porque mais me custa vê-lo esquecido do que tê-lo apenas comigo.

Há livros que, quando não têm lugar no mundo, voltam para casa. Talvez um dia volte a lançá-lo — talvez não. Mas ele está onde deve estar por agora: no lugar de onde nasceu.

Contra a corrente, por escolha

Curiosamente, tomo esta decisão numa altura em que tantos autores estão a lançar novos livros, em plena época de Feira do Livro. É um tempo de festa literária — e eu sigo noutra direção.

Mas nem sempre ir contra a corrente é errar. Às vezes, é apenas ouvir a nossa própria bússola.

Onde tudo recomeça

Hoje não trago um livro novo, mas uma decisão antiga que finalmente amadureceu. Retirar um livro também é um gesto de amor. Dar-lhe tempo. Dar-me tempo.

Porque há livros que, quando não encontram o seu lugar no mundo, voltam para casa e talvez seja aí que tudo recomece.

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