História de um carro à porta no dia da festa da aldeia

A foto é do Karl Callwood no Unspalsh

Numa aldeia durante a festa, um carro mal estacionado despertou críticas imediatas. Mas um simples gesto mostrou que nem tudo é o que parece. Uma reflexão sobre o impulso de julgar antes de observar.

Quando julgamos antes de observar: a história de um carro à porta

As festas da aldeia atraem sempre muita gente para um espaço que, na verdade, é pequeno e não consegue acolher todos os carros que por ali aparecem. Por isso, é natural vermos carros estacionados de um lado e do outro da Estrada Nacional, que atravessa a aldeia. E quando essa estrada, ou a mais próxima do recinto da festa, já está cheia, o estacionamento começa a espalhar-se pelas ruas vizinhas.

Uma dessas ruas é a minha. E, por si só, já não tem muito espaço — há entradas de casas, portões, recuos… enfim, não dá para muitos carros.

No sábado à noite, o auge da festa, a aldeia encheu-se ainda mais. E não foi surpresa ver a minha rua também completamente cheia.

Um carro à frente do meu portão

Foi então que, ao chegar a casa, reparei que à frente da entrada do meu portão estava um carro estacionado. A rua é estreita, sobretudo ali no início, e para deixar espaço para outros veículos passarem, o carro encostou-se ao máximo… precisamente à minha entrada.

E eu não tenho outra.

Ficámos chateadas. Achámos aquilo uma enorme falta de civismo. Uma cegueira motivada pela pressa de chegar à festa. Estamos a falar de uma festa da aldeia — não de um festival ou de um megaevento. Estacionar um bocadinho mais longe e andar a pé não custa assim tanto.

Mas pronto, naquele momento, a irritação tomou conta. A crítica veio de forma automática:

“Podia ter feito assim, podia ter feito assado, quem é que se lembra…”

Nem demos espaço para outra possibilidade.

Quase deixei um bilhete

Ainda pensei em deixar um bilhete — chateada, sim, mas educada — a pedir que, da próxima vez, não estacionasse daquela forma. Porque podia haver uma urgência. Porque não temos outra entrada. Porque não se sabe se vive ali alguém com mobilidade reduzida. Enfim, muitas razões.

Mais tarde, já deitada, o pensamento ainda estava ali a remoer. Como é que, num sítio tão calmo, alguém faz uma coisa destas?

E a dúvida instalou-se: se esta foi a atitude da pessoa ao estacionar, que atitude terá ao sair da festa? Foi esse o último pensamento antes de apagar a luz.

Mas havia um papel no retrovisor

Só que tenho uma janela mesmo por cima da porta. E, por curiosidade, fui espreitar lá para baixo, do primeiro andar. Vi logo que havia um papel grande no retrovisor do carro. Estava escuro e não consegui ler.

Então desci. Abri o portão, passei de lado pelo espacinho que o carro tinha deixado… e fui ver.

Era um papel com o número de telefone do dono do carro, escrito em letras grandes. Ou seja, a pessoa sabia o que tinha feito. Estava consciente. E, por isso mesmo, deixou o contacto — caso fosse preciso tirar o carro.

Moral da história

Não vamos partir logo para o julgamento, para a crítica fácil.

Primeiro observar. Respirar.

E só depois, se for mesmo necessário, reagir.

E acrescento: apesar de não ter exteriorizado tudo o que estava a sentir, senti-o. Julguei também. E isso também precisa de ser trabalhado em mim, para que o primeiro impulso não seja esse. Para dar uma hipótese à pessoa… e a mim também.

Porque se eu tivesse observado primeiro, teria poupado uma boa dose de irritação — e de julgamento.

Deixe um comentário

*