Testemunho 2 Sandra

Sandra Ramos

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O que fazias?

Tinha uma empresa que se dedicava à contabilidade, auditoria e economia.

O que fazes agora?

Abri um Estúdio de Yoga. Concilio esta atividade com a função de Diretora de um Centro Comunitário, uma Ipss que se dedica a ajudar o próximo.

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

A sensação de esgotamento físico e mental. Senti fisicamente as causas da ansiedade que o meu trabalho me provocava. Senti-me a sufocar. Senti que me estava a perder e decidi reencontrar-me. Percebi que tinha de repensar a minha vida. A vida de stresse e a validação do meu profissionalismo já não faziam parte de mim. A falta de tempo e de energia, assim como as horas de trabalho pela noite dentro, mostraram-me que o caminho a seguir já não era por ali. Tornou-se muito mais importante dedicar tempo de qualidade aos meus filhos, família e amigos. 

O que te impulsionou a passares à ação?

Primeiro abrandei, depois parei e pensei. Voltei a pensar muito, sobretudo em alternativas ao sufoco que sentia quando chegava ao escritório. Comecei então por mudar a minha atitude perante a vida, através de um processo de autoconhecimento. Aceitei quem eu era. Acredito que nós já somos quem procuramos. Apesar de não controlar o que se passava no exterior podia controlar a minha reação interna. Tratei de prestar atenção aos detalhes no meu trabalho, enfrentando o desafio de gerir pessoas, clientes e tempo. Controlei as minhas expetativas tolerando a diferença dos outros, com peito aberto e de modo positivo, aceitando que somos todos seres humanos, que é normal falhar, que podemos sempre voltar atrás e tentar de novo. Depois, iniciei uma nova fase dedicada à meditação, à espiritualidade, acreditando que existe uma força mais forte que nós, que nos une e que nos dá força para acreditarmos na mudança. Tudo parte de nós, nós podemos decidir a todo o momento. Comecei a procurar dentro de mim o que me fazia feliz, prestando atenção à minha volta; investi em formação na área que me interessava e preparei-me para mudar. No meu caso, trabalhar com crianças era o que me fazia feliz. Aos poucos comecei a delinear uma estratégia para ir alterando de vida sem prejudicar as pessoas que dependiam diretamente do meu trabalho. Inscrevi-me como voluntária num Centro Comunitário, trabalho esse que me trouxe bastante realização pessoal.

Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

O maior desafio foi assumir o medo e reunir a coragem necessária para iniciar um novo projeto de vida. Foi um ano cheio de desafios. Tive que explicar aos funcionários, clientes e parceiros de negócios que já não queria estar neste mundo empresarial. Tive que enfrentar a minha família e os amigos e explicar o porquê de tal decisão. Se para uns é inspirador, para outros é motivo de preocupação e estranheza. Algumas pessoas não percebem a necessidade de mudança, cada um segue a sua vida a quem está ao lado passa despercebido; acontece com todos, vivendo nós num mundo cada vez mais individual. Outro grande desafio foi o facto de tentar sobreviver com menos dinheiro, mudar os meus filhos de escola sentindo culpa por alterar a vida deles em prol da minha nova realidade financeira. A nível pessoal, foi desafiador abrir os olhos e ver-me com uma profissão totalmente diferente. Ver-me e não me rever numa nova função. Foi um choque a adaptação a uma nova realidade, alcançada, mas não interiorizada. Também pesou o facto de não conseguir controlar tudo, tal como fazia com a minha anterior profissão, que exercia há quase 20 anos. Tive receio de não conseguir desempenhar bem esta nova função. Aprendi a olhar para mim aceitando que tinha um novo papel que foi escolhido por mim e aproveitando a segunda oportunidade que a vida me havia dado: um presente há muito ambicionado e a alegria de poder trabalhar com crianças, tanto no estúdio através do papel de professora de yoga para crianças tal como no Centro no papel de gestão geral da Instituição ajudando os outros a alcançarem uma vida melhor.

O que procuras?

Procuro ser honesta comigo e com quem me rodeia, seja em pensamentos, atos ou ações. Procuro ser feliz e agradecida todos os dias porque é maravilhoso trabalhar no que gostamos.

Já encontraste?

Sim, estou a adorar minha nova vida profissional que influenciou positivamente a minha vida pessoal. Tive muita sorte com a vida que me calhou, sou muito feliz. Mesmo que, por vezes, seja difícil dar o primeiro passo, olhamos para trás e vemos que valeu a pena! Todas as dúvidas, incertezas e dificuldades fizeram parte do processo.

Já te arrependeste?

Não! Mudei na altura certa. Não poderia ter sido mais cedo nem mais tarde. Foi como se me estivesse a preparar para este momento. Posso ter menos dinheiro, viajar menos, comprar menos coisas, mas tenho a riqueza de acordar todos os dias feliz e, por consequência, contribuir para fazer os outros felizes.

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http://www.upstudioyoga.com

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Testemunho 1 Luís

Luís Sanganha

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O que fazias?

Fui exclusivamente produtor de programas de televisão (na área do entretenimento) durante aproximadamente 8 anos.

O que fazes agora?

Atualmente, divido-me entre projetos: alguns ainda ligados à área profissional que sempre desenvolvi (nomeadamente a produção de eventos, publicidades, conferências e services) e concilio com aquele que sempre foi o meu grande sonho: a Música (estou numa Companhia de Teatro onde participo em alguns Musicais infantis, tenho um duo de guitarra e voz e faço algumas participações noutros contextos, cantando onde existem convites).

Qual foi o primeiro sintoma da vontade de mudança?

Penso que ele possa ter aparecido sem sequer “dar-lhe voz” durante algum tempo. Sempre gostei do trabalho que desenvolvia assim como sempre me aliciaram os desafios que me foram sendo colocados, numa óptica de crescimento e amplitude profissional. No entanto, também sei que interiormente sempre fui ansiando e sonhando com o dia em que poderia explanar e projetar aquilo que sempre me acelerou o ritmo cardíaco: a transmissão das emoções através do canto. E, sem dar conta, não que tivesse colocado em causa a dedicação diária ao trabalho que fazia, mas percebi que a motivação para permanecer a 100% estava prementemente a ser, cada vez mais, inversamente proporcional à vontade de tentar.
O que te impulsionou a passares à ação?

Parafraseando e adulterando um pouco uma frase de Blaise Pascal, «O “acaso” tem razões que a própria razão desconhece». Muito embora a profissão de produtor de TV esteja estruturada como trabalho independente, a verdade é que estava já há alguns anos na mesma empresa, quando esta terminou o vínculo laboral que fomos mantendo ao longo do tempo. E foi nesse período de reflexão (há cerca de um ano), após vários anos de trabalho intenso, que pude repensar qual o rumo a seguir: ou continuaria a tentar trabalhar no meio e ampliava o espectro de empresas laborais e experiências profissionais, ou teria chegado finalmente o momento de arriscar e tentar poder fazer profissionalmente aquilo que pertencia apenas ao Sonho. Naturalmente, intuí que talvez tivesse chegado esse momento e escolhi a segunda opção.
Tem sido fácil? Quais têm sido os maiores desafios?

Não posso categorizar como sendo totalmente fácil a mudança em si, na medida em que somos obrigados a rever os nossos alicerces mais primordiais. Mas é nas escolhas que vamos fazendo, que diferenciamos sempre entre o que vale a pena abdicar e as coisas sem as quais não podemos viver. Na verdade, acredito que muitas vezes, para darmos passos em determinadas direções, temos que primeiramente recuar alguns também. E foi isso mesmo que fiz! Materialmente fiquei apenas com o essencial (motivou uma mudança de casa, novos hábitos pessoais) e aprendi a ordem do desapego, passando a reflectir melhor sobre as minhas opções quotidianas. E talvez este tenha sido o maior desafio ao longo do tempo, uma vez que te desajustas daquilo que é socialmente o padrão e a que todos somos ensinados desde sempre: enquanto todos lutam para ter mais, tu estás repentinamente a fazer por aparentemente ter menos e a abdicar do que te pode manter a vida como a conhecias até então. Mas como tenho por hábito dizer: “menos dinheiro, mas mais feliz por fazer o que mais gosto”.
Mal sabia eu de que, por antagonismo, estaria a amadurecer do ponto de vista humano. E tenho aprendido também a viver com Liberdade, pois nem sempre é pacífico ficarmos constantemente a depender apenas de nós próprios e das nossas escolhas para corresponder às obrigações primárias da vida todos os meses. 
Depois, há ainda outro ponto: o exercício do canto é muito semelhante ao exercício do resto do corpo. Se não o praticas regularmente, corres o risco de enferrujar. Foi nessa fase de mudança que decidi também recorrer ao estudo e à prática do mesmo, confrontando-me com as minhas próprias dificuldades e/ou características que teriam ficado pelo caminho. E, claro, recuperar auto-estima artística, avaliando se as “pernas ainda têm força para correr”.

O que procuras?

Procuro poder subsistir unicamente como intérprete musical, para ter a possibilidade de ter tempo e espaço criativo. Tenho como finalidade poder “servir a Música” (e não servir-me dela!) a tempo integral. Mas como ouvi uma vez o Maestro José Calvário dizer: “As casas constroem-se pelos alicerces e não pelo telhado”.
 
Já encontraste?

Felizmente tenho tido muito boas surpresas pelo caminho. Ainda não encontrei exatamente o que possa ser pretendido, mas a verdade é que de facto a minha vida deu uma grande volta. Deixei de ser apenas espectador (seja na ida a um espectáculo ou enquanto produtor de TV), para poder regularmente ser eu partilhar as emoções que tenho em cima de um palco (conciliando os projetos mencionados acima). E a verdade é que é dando pequenos passos que o caminho se tem vindo a construir. 

Já te arrependeste?

Naturalmente que todos nós podemos ter, num momento ou outro, dúvidas se estamos certos nas nossas convicções. E até receio da falha. Naturalmente que esse medo, uma vez por outra, pode bater à janela. Mas também é ele que pode ter a ambivalência de nos fazer andar para a frente.
Não estou de todo arrependido. Acho que estamos sempre a tempo de tentar perseguir aquilo que acreditamos ser o que mais nos realiza. A efemeridade do tempo e da vida não nos permite deixar que tudo passe sem o esforço da tentativa. E na verdade, posso afirmar que dentro de tudo o que já apreendi, existem duas grandes noções que se destacam: apenas tentando e arriscando poderemos fazer o tal caminho que vive na esfera do desejo/sonho; e, da mesma forma que consegui dar alguns passos atrás para poder “andar para a frente”, posso sempre voltar a recuar mais ainda e tentar redefinir uma nova direção. Porque, na verdade, acredito que importa muito mais como nos sentimos e o que nos faz felizes em detrimento daquilo que à priori pode ser considerado já por nós conquistado, mas que não nos faz viver em pleno.

Luís Sanganha

https://www.facebook.com/luis.sanganha.music/

Mudar de vida

Já alguma vez pensaram em mudar de vida?

Ultimamente, tenho lido alguns relatos de pessoas que mudaram de vida e até tenho o privilégio de conhecer algumas. Largaram empregos onde eram consideravelmente bem remuneradas e até com algum estatuto, aos olhos de a quem isso importa, em cidades cosmopolitas, enfim o que muitos desejam. Apesar de parecerem ter tudo, resolveram mudar.

Assustados, receosos e atónitos assistem familiares e amigos face à decisão e concretização da mudança. A maioria até se pergunta se a pessoa está no seu pleno juízo. Esta assistência é legítima e comum. Afinal, a mudança leva a deixar tanto para trás… Sabemos o que deixamos, mas nunca o que vamos encontrar. Então, o que terá motivado todas estas pessoas a mudar?

A partir de amanhã, aqui no blog, publicarei testemunhos reais de pessoas de diferentes sectores de atividade que nos ajudarão a responder a esta pergunta.

Leiam, descubram e, quem sabe,  inspirem-se!

Photo from Unplash!

Estou apaixonada

Cada dia é um dia, em todos os campos da vida, mas sobretudo ao teu lado. Há alturas em que tenho a certeza que estarás, há outras em que nada me garante. Nem tu próprio!

Vivemos numa era estranha… Quanto mais sabemos e conhecemos (comparado com a sociedade há dezenas e centenas de anos atrás), menos certezas acolhemos. E ultimamente, tu estás como o mundo: estranho de tão incerto. Mesmo nesta época em que não é suposto estares todos os dias…

Mas os ressentimentos não têm espaço em mim.  Paradoxalmente, a tua ausência repete-me que aparecerás. E eu, não duvido um único instante! Para não mencionar que sempre que estás, esforço-me para te viver intensamente.

Esta manhã foi um desses momentos. Acordei, abri a persiana e lá estavas tu: luminoso e cheio de ti! Como eu gosto! Ainda que próximo, não te senti todo o calor que tanto procuro em recordações, viagens, leituras e recantos. Mas sei que virá! Ah, se virá!

Obrigada! Obrigada sol, por também tu me aqueceres o meu dia.

Gosto de ti! E gosto mais ainda de quem te inventou!

Photo from Unplash

O meu Natal

Se tivesse de fixar uma data para um Natal meu, pelas mesmas razões que as pessoas que o festejam enumeram, então seria em Agosto.

No que diz respeito à refeição de família, Agosto era o mês em que toda a família se reunia, ou na mata para um pique-nique seguido de uma tarde de praia, ou em mesas compridas na casa da terra.

No que diz respeito à parte religiosa, qualquer mês serve, se fosse suposto festejarmos. Digo isto porque, sendo eu cristã, procurei a data exata do nascimento do filho de Deus no livro inspirado pelo próprio, a Bíblia, e em parte alguma ficou registada!

A questão que se impõe: o que andam os povos a festejar a 25 de Dezembro de todos os anos?

Ora, uma refeição em família é um momento que faço questão de repetir o mais possível, sempre que a oportunidade surge. Quando a oportunidade não surge, reúno condições para a criar.

Quanto ao nascimento do menino Jesus, que entretanto hoje tem mais de 2000 anos, visto não haver indicações bíblicas com uma orientação específica para festejarmos o seu aniversário natalício, pouca importância tem. Ao ler livros bíblicos com relatos da vida de Jesus percebi que foi, e ainda hoje é, um modelo de conduta a lembrar e a seguir, não só num dia determinado, mas todos os dias.

Assim, o meu natal são muitos dias em muitos meses do ano através de uma refeição em família, família consaguínea ou de amigos, de um telefonema de encorajamento, de uma mensagem cómica, de um passeio a pé, de um presente, de um abraço, enfim, de um momento dedicado a uma determinada pessoa.

Recuso deixar-me arrastar pelo materialismo e consumismo a que estamos sujeitos diariamente explícita e subtilmente. Recuso-me em épocas neutras, quanto mais nesta época tão descarada. Não quero fazer parte da cegueira comercial e espiritual que assola este mês de Dezembro.

Assim, o meu natal não tem data fixa. O meu natal não tem cor, não tem preço, não tem forma, nem estação. O meu natal é quando eu sinto que devo dar de coração.

Photo: Unplash

Paladar 

Esta manhã, ao chegar ao trabalho, deparei-me com um grupo de colegas a relembrar, num apurado tom nostálgico, os doces que comiam quando eram crianças. Entre sabores e marcas, o reavivar da memória aconteceu, sobretudo a memória do paladar.
Olhando para trás, para três dezenas de anos atrás pelos menos ( ainda não tenho problemas de vista ao longe), vi a saborosa inconsciência da infância. Se fosse doce era delicioso!

Agora, em idade adulta, o sabor da inconsciência pode tornar-se muito amargo. Aprendemos que nem tudo o que é doce é favorável. Percebemos também que neste breve regresso ao passado, a conversa, aparentemente banal, significa que sentimos profundamente a falta de comer livremente, de saborear sem a frequente pitada de preocupação que se tornou o acompanhamento obrigatório das mais variadas refeições que fazemos ao longo do dia. Recordamos para viver, mas também para perceber o ponto onde chegámos.

E chegámos aqui: a um mundo gastronómico diferente. Muito diferente. Neste canto do mundo onde me encontro, a variedade de alimentos é extensa, mas a qualidade é reduzida. Somos constantemente abordados por demasiadas opiniões sobre a alimentação correta. Vitamina a menos faz mal, vitamina em excesso não faz bem. Se comemos biológico temos de ter cuidado com os pesticidas. Se comemos plástico, parecemos um ecoponto! Uns adoecem por não comer, outros por ingerir alimentos desnutridos.

Olhando para trás, para três dezenas de anos atrás pelos menos, lamento a saborosa inconsciência da infância.

Photo: unplash

Junho

Finalmente chegámos ao mês de Junho. É o meu mês preferido por várias razões. Uma delas, a mais leve, é porque o tempo já permite que as roupas pesadas nas cores e na textura sejam substituídas pelos tecidos coloridos e fluidos que o fim da primavera exibe.

Outra razão, a mais significativa, é o facto do mês de Junho marcar o fim do primeiro semestre do ano, semestre esse em que, geralmente, nos propomos mudanças e até inovações. Iniciamos o ano com novos desafios, novos alvos, novas expectativas que, muitas vezes, falecem ao longo do caminho. Só com muito esforço, foco e alguma teimosia os projetos chegam a meio do ano ou ao fim.

E este meu mês de Junho tem esse sabor: o de leveza e de conquista.

Em Dezembro aceitei o desafio de aprender a ensinar. Iniciei em Janeiro e agora, chegada a meio do ano, sinto-me muito satisfeita. Não vou mencionar o cansaço a que acrescentar um desafio à tua já pesada rotina te leva, vou antes frisar a alegria de atingir objectivos. Dia-a-dia, semana a semana, mês a mês a tua visão ganha novos horizontes. E quando ergues os olhos e te situas, é surpreendente o quanto já te afastaste do ponto de partida.

Há momentos assustadores em que pensas que afinal não és capaz. Há outros instantes, muito curtos, em que quase lamentas a pasmaceira da rotina anterior “porque não fiquei quieta no meu espaço de conforto?” Mas na realidade, é esta a adrenalina que procuramos: superar medos e ir além de nós.

E este meu mês de Junho tem esse sabor: o de leveza e de conquista.

O mês de Junho ainda só é o meio do ano. Quem ainda não começou, este é o momento de traçar um plano ( muito importante) e de agarrar o próximo semestre. Quem sabe se Dezembro não será o vosso mês de leveza e conquista?

O que importa é que nos mantenhamos vivos vivos!

Dia de São Nunca 

Aproximo-me do balcão onde se encontra uma colaboradora concentrada entre papéis e computador, tão concentrada que me ignora!

Visto naquela tarde usufruir do privilégio de ter tempo, resolvo passear pelas prateleiras enquanto lhe dou tempo para terminar eventualmente o que tanta a ocupa. Ficção científica, esoterismo, ciências, direito, literatura estrangeira… Desvio o olhar das estantes e à minha frente está uma área vazia com vários quadros expostos e devidamente iluminados. Percebo que a livraria desfruta de uma pequena zona de exposições activa.

– Que boa ideia! – Sorri ao empreendedorismo aparente.

Dou meia-volta e retomo o corredor das estantes: economia, língua portuguesa, língua francesa, língua inglesa, trabalhos manuais…

Volto ao balcão. Tenho tempo, mas o tempo esgota-se. Coloco-me perto da caixa. A colaboradora continua ocupada, desta feita, muito mais. Para além de continuar na tarefa que a impedira de me atender, responde a perguntas de uma cliente habitual. Parece-me habitual pela pouca atenção que lhe dá à qual atribuo excesso de confiança.

A cliente vai embora. Fico eu. Fico eu ali em frente à única colaboradora presente, a aguardar que me dê atenção. Gosto que olhem para mim quando falo. Esperei. Esperei mais um pouco… E avistei o que queria. Esquecendo o facto de, mais uma vez, estar a ser ignorada, dirigi-me para a bancada do autor que procurava. Vejo parte do que quero. Sirvo-me e volto ao balcão. Volto para o mesmo local do balcão onde continua de ar rude esta focada criatura.

– Boa tarde! Neste livro diz segunda parte. Acontece que eu queria a obra por inteiro. Apesar de ter procurado, não encontrei. Pode ajudar-me?

A meio da conversa ela olhou para mim, finalmente, e afirmou não haver a primeira parte.

– Está esgotada há um tempo.

– E não tem noutra edição, ainda que não seja a de bolso? É que não me interessa levar uma parte sem a outra.

Agarrando no livro que eu tinha ido buscar concorda comigo e dirige-se a outra prateleira. Acreditei que estivesse à procura de outra edição. Percebo que não quando, sem o mínimo esforço, volta para o posto dela: o computador.

Não conformada com este término de conversa ainda pergunto:

– E vai voltar a ter?

– Sim. Para a semana!

– Para a semana em que dia? – Perguntei eu enquanto tentava explicar que precisava para segunda-feira, mas fui interrompida com um abrir de olhos e um:

– Para a semana!

Ao contrário de outros tempos, respirei fundo e saí. Confesso que fiquei incrédula com a atitude e resposta. Abandonei a livraria sem agradecer e convicta de que voltaria um dia… Qual? No dia de São Nunca!

Desejo

Há pessoas que vão trabalhar para a televisão porque gostariam de ser artistas. Há as que vão trabalhar para agências de viagens porque gostariam muito de viajar mais. E poderíamos correr assim as várias profissões.

Ora gostos não se discutem, já falamos sobre isto, mas explicam-se.

Ontem fui ao banco e após ser atendida, em vez das formalidades habituais como “bom fim-de-semana” ou “boa tarde”, dada a altura do ano em que nos encontramos, acrescentou-se o “bom ano!”. Não dou qualquer importância a esta festividade mas resolvi enriquecer o meu cumprimento com um “muita saúde sempre, é o que mais precisamos”. E achando eu que terminava ali a interação com a bancária, fui surpreendida com o seguinte discurso:

– Tenho uma teoria, sabe! Muito dinheiro é o que precisamos porque com dinheiro podemos comprar o que queremos e se adoecermos podemos pagar o tratamento.

Olhei para ela perplexa e perguntei:

– E no caso de uma doença incurável?

A perplexidade passou repentinamente para a minha interlocutora.

Há pessoas que vão trabalhar para a televisão porque gostariam de ser artistas. Há as que vão trabalhar para agências de viagens porque gostariam muito de viajar mais. Há as que trabalham em bancos porque gostariam de ter mais dinheiro. E há certamente uma que se vai arrepender de não ter tirado o curso de medicina!!!